

Abra Seu Corao
Robin Jones Gunn
Srie Selena 7


Ttulo original: Open Your Heart
Traduo de Myrian Talitha Lins
Editora Betnia, 2001
Digitalizado por deisemat
Revisado por deisemat




De repente, coisas incrveis acontecem na vida de Selena: uma viagem inesperada a Europa: o encontro com Alex, um rapaz que conquista o seu corao e faz com que
ela quase se esquea de Paul. Sentimentos novos e momentos especiais vividos por Selena parecem trazer 1 importante recado:  ABRA SEU CORAO 
Selena  convidada para ir at  Sua conhecer a escola onde Cris Miller ir estudar. As 2 vo com a tia de Cris que est financiando a viagem. E que viagem! No 
percurso de trem da Alemanha para a Sua elas conhecem Alex, um rapaz russo que fica encantado com Selena. Mas tia Marta no aprova essa amizade e faz de tudo para 
impedir que Selena e Cris voltem a encontrar com o rapaz Alex est disposto a fazer com que a tia de Cris mude de opinio a seu respeito e torna-se 1 grande ajudador 
nos momentos em que elas mais precisam. Todos os acontecimentos dessa viagem fazem com que Marta abra seu corao e revele s meninas 1 parte de seu passado que 
ela escondeu por muitos anos. E Selena? Tambm mudar aps essa temporada na Europa? Aprender a amar sem esperar receber algo em troca? Abrir seu corao a Deus 
e aos que esto  sua volta?


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SEMEADORES DA PALAVRA e-books evanglicos

Aos meus amigos da editora Focus on the Family.
Muito obrigada a todos vocs que cooperaram para que "Selena" e "Cris" passassem bons momentos na companhia uma da outra e de suas amigas da vida real - as jovens 
de vrias partes do mundo.

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Captulo Um

      Selena sentiu o corao bater forte no peito e percebeu um latejamento nos ouvidos. Agarrou os braos da poltrona do avio e tentou gritar, mas no conseguiu.
      Vamos cair! pensou. Este avio vai mergulhar de ponta nesse mar gelado! Vamos morrer!
       Entretanto, em vez de ver toda a sua vida "passando" como um filme em sua memria, ela se recordou dos acontecimentos dos ltimos dias. Estivera no casamento 
de seus amigos Douglas e Trcia, na Caifrnia. Alis, fora Tnia, sua irm, quem pegara o buqu atirado pela noiva. Instantes depois, vira a amiga Cris, ao lado 
de Marta, tia dela. Dali a pouco, as duas a convidavam para esta viagem, para vir com elas  Sua.
      A cena que viu a seguir foi ainda na Califrnia. Estava telefonando para os pais, em Portland, pedindo-lhes que procurassem seu passaporte, naquele seu quarto 
bagunado.
      - Olhem na escrivaninha, disse. Talvez esteja na ltima gaveta.
      Em seguida, viu-se embarcando no avio, bem cedo de manh, com o documento na mo. Agora estava ali, dentro da aeronave que caia em direo ao mar. Soltou 
um grito, mas apenas em pensamento. Ao longe, ouviu uma voz conhecida que a chamava.
      -        Selena! Algum problema?
      Sentiu um toque de leve no brao tenso. A voz chegou mais perto. A garota abriu os olhos ofegando.
      -        J vamos aterrissar, disse Cris, que se achava ao lado. Est com algum problema? Voc estava falando enquanto dormia!
      Selena piscou e deu uma olhada a sua volta. Espiou l para fora e viu o cu azul-claro. O avio no estava caindo; seguia seu curso firmemente. Nos assentos 
prximos ao seu, Cris e Marta calmamente se preparavam para a descida.
      - Tive um pesadelo horrvel, explicou ela, aprumando-se na poltrona, passando a lngua pelos lbios e recobrando o flego. Pensei que o avio ia cair.
      Seu tom era de quem achava tudo aquilo muito engraado, mas ainda sentia o terror que o sonho inspirara. Afinal de contas, o contexto todo era muito real.
      Na verdade, porm, estava de viagem para a Alemanh. Nesse pas, ela, Cris e Marta iriam pegar um trem para a Sua. E realmente haviam se passado apenas poucos 
dias - alis, todos muito agitados - desde que assistira ao casamento de Douglas e Trcia, em Newport Beach. Aps a cerimnia, recebera um convite de ltima hora 
para fazer esta viagem. Ento, o sonho era real, a no ser a parte em que o avio estava caindo no mar.
      - Quer um lencinho mido? indagou Cris. Peguei um pra voc quando as comissrias passaram distribuindo. Agora ele j deve estar frio.
      Selena rasgou o pacotinho e pegou o leno que de fato havia esfriado. Desdobrou-o e colocou-o sobre o rosto, aspirando o leve aroma de limo. Com uma das mos, 
pegou o cabelo louro e encaracolado e ergueu-o. Em seguida, passou o lencinho no pescoo. Abaixou a cabea e olhou para a cala jeans que usava. Perto do joelho 
direito, havia uma mancha de mostarda, no fomato de uma folha. Ela deixara cair o condimento na roupa, no momento em que sobrevoavam o Canad. Estava comendo um 
sanduche e, ao rasgar o invlucro de mostarda com os dentes, uma gota respingara na cala. Passou o lencinho mido naquele ponto, mas no adiantou. Provvelmente, 
ela ficaria manchada at o fim da viagem.
      Elas haviam partido da Caifrnia e, por isso, Selena no pudera ir em casa pegar roupas mais adequadas para o clima da Sua nessa poca do ano. Tambm no 
pudera ajudar muito os pais que, aflitos, procuravam seu passaporte. Felizmente, o Kevin, seu irmo mais novo, conseguira encontr-lo cado atrs da cmoda. Em seguida, 
os pais dela o haviam remetido pelo correio pelo sistema de encomendas rpidas. Agora Selena pensou que deveria ter aproveitado para pedir outras peas, como uma 
cala jeans, por exemplo.
      Tudo se passara rpido demais. Ela ligara aos pais para falar-lhes do convite para a viagem, e eles lhe haviam dado todo o apoio. O casal era muito flexvel 
com os seis filhos e, como Selena era a quarta filha, eles se sentiam muito tranquilos com as aventuras dela. Contudo, a essa altura, nem a garota sabia direito 
em que ela fora se meter.
      Cris remexeu-se no assento. Pegou o cabelo castanho-claro e prendeu-o com uma "xuxinha". Em seguida, cruzou as pernas longas e elegantes. Selena percebeu que 
a amiga tambm se achava um pouco desinquieta. Talvez estivesse apenas com o corpo dolorido pela longa viagem de doze horas. Ou, quem sabe, j estivesse comeando 
a irritar-se com a Tia Marta, como Selena estava.
      - A que horas vamos aterrissar? indagou.
      - s 8:27h, replicou Marta. Lembre-se de que aqui agora j  de manh. E teremos apenas uma hora de prazo para passar na alfndega, recolher a bagagem e pegar 
o trem para Basilia. Vamos ter de andar rpido.
      A tia de Cris era a eficincia em pessoa - o tempo todo. Selena no "morria de amores" por aquela mulher baixinha, muito refinada e dominadora. Fora ela que 
ajudara a Tnia, irm de Selena, a arranjar um emprego como modelo, na Caifrnia. E, exatamente por isso, os pais da garota no haviam tido nenhum temor de deix-la 
fazer essa viagem repentina para a Europa. Em qualquer outra pessoa, uma despesa desse tipo causaria estranheza. No, porm, a Tia Marta. Para esta, o dinheiro era 
apenas um "meio" pelo qual ela atingia seus objetivos. E nesse momento, seu objetivo era levar Cris para a Sua, onde a jovem iria visitar uma faculdade para a 
qual ganhara uma bolsa de estudos.
      - Olha aqui, disse Marta, pegando um bloquinho de gomas de mascar e dando a cada uma das meninas.  para "desentupir" o ouvido. O avio ja comeou a descer.
      - No precisa me dar um pacotinho inteiro, no, interveio Selena. Basta meio tablete.
      Uma expresso de irritao estampou-se no rosto bem maquiado da mulher. Alis, ela estava totalmente impecvel. No se via um s fio de cabelo fora do lugar. 
Sua roupa elegante no estava nem amarrotada. Como ser que ela conseguia manter uma aparencia assim aps um vo to demorado? Cris fitou a amiga com seus olhos 
azul-esverdeados. Sua expresso parecia querer dizer-lhe que pegasse o chiclete e ficasse calada.
      - Ah, 'ta bom, obrigada, replicou ela prontamente. Eu guardo o resto pra depois.
      Enfiou na boca metade da goma de mascar, sabor hortel, e se ps a pensar na misteriosa razo de ter sido chamada para aquela viagem. O que ela explicara aos 
pais fora que Marta tinha trs vouchers para passagens. Um seria para ela, outro para Cris e o terceiro para Ted, o namorado desta. Contudo o rapaz no pudera tirar 
uma folga no servio. Katie, a melhor amiga de Cris, quebrara o p alguns dias antes e estava impossibilitada de viajar. Marta nem mencionara a possibilidade de 
chamar seu marido, o Bob, o que Selena achou estranhssimo. A me de Cris tambm no quis ir. Disse que no aguentaria uma viagem to longa. S restava Selena. Entretanto 
a garota nem se importou de ter sido lembrada como um "tapa-buraco". Estava empolgada com a idia de fazer aquela viagem.
      - Deu pra descansar um pouco? quis saber Cris.
      - Um pouquinho; e voc?
      - Acho que dormi umas duas horas. Voc se lembra de como foi difcil superar esse problema da "ressaca" de viagem quando viemos  Inglaterra em Janeiro?
      - Lembro, replicou Selena. Ouvi dizer que o melhor a fazer  ficar o dia inteiro acordada para poder dormir  noite.
      - E  exatamente o que vamos fazer, interveio Marta, olhando para o cinto de segurana das duas garotas para ver se estava tudo em ordem. Vamos pegar um trem 
no aeroporto que vai direto para Basilia. Assim que nos registrarmos no hotel, vamos  faculdade. Marquei uma entrevista com o diretor para hoje s 2:30h da tarde, 
concluiu ela, mascando o chiclete com ar pensativo.
      - , e assim no vai sobrar tempo pra nada, comentou Cris. Isto , pra rodar por a.
      Marta ergueu um pouco as sobrancelhas e fitou a sobrinha demoradamente.
      - No temos nenhum plano de ficar "rodando por a", disse ela. E mastigue de boca fechada, meu bem.
      - O que estou querendo dizer, insistiu a jovem,  que j viajei de trem pela Europa e...
      - ... e eu ainda no? indagou a tia.
      - E quando  que vamos almoar? interveio Selena, procurando quebrar um pouco a tensao que se formava. Ainda no conversamos sobre isso.
      - Vamos almoar no trem, explicou Marta. Pelo menos, vamos viajar de primeira classe.
      Selena compreendeu que a tia de Cris ainda estava chateada pelo fato de seus lugares no avio no serem na primeira classe, como ela queria. Marta discutira 
com o atendente no balco da companhia no aeroporto, mas no conseguira nada. A nica vantagem que lhe haviam prometido era que na volta estariam nessa classe.
      - Parece que o dia est muito bonito, comentou Cris, fazendo um aceno de cabea para os prdios, estradas e campos que j comeavam a avistar da janelinha 
do avio. Daqui tudo parece to bonito, n? Tudo limpo e certinho.
      - E voc acha que no e assim, no? perguntou Selena, que nesse momento avistou a pista de pouso.
      - Bom, disse Cris, nunca estive na Alemanh nem na Sua, mas as paisagens que vi na Espanha e na Frana no eram prpriamente iguais as de um postal, no.
      No momento em que ela terminou de dizer isso, as rodas do aparelho tocaram o cho, e a gigantesca aeronave foi diminuindo a velocidade.
      Selena agarrou no brao da poltrona e cerrou os dentes,  espera de que o avio parasse.
      Ainda hem que no caiu, pensou. Chegamos! Foi s um terrvel pesadelo. E provvelmente foi por causa daquela correria pra arrumar tudo. Ou talvez por causa 
dos picles que comi no sanduche.
      - Tudo pronto, meninas? indagou Marta. No se esqueam da bagagem de mo.
      As duas jovens se entreolharam, enquanto soltavam o cinto de segurana e pegavam as bolsas de viagem que se achavam embaixo do assento  frente delas. Selena 
logo imaginou se Cris estaria pensando o mesmo que ela: passar uma semana ali em companhia da Marta poderia ser mais dificil do que haviam imaginado.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Dois
      
      As viajantes passaram pela alfndega e recolheram a bagagem sem nenhum atraso, para satisfao de Marta. Pouco depois, embarcavam no trem de ferro e iam para 
seus lugares, uma cabine reservada na primeira classe. As garotas se deixaram cair na poltrona com suspiros de alvio.
      - Acho que batemos um novo recorde, comentou Cris.
      - Isso demonstra que tenho razo, replicou Marta, com uma expresso de satisfao. Se fizermos tudo certinho e agirmos de forma organizada, no vamos perder 
a hora para nada.
      - Estou morrendo de fome! exclamou Selena, guardando a mochila no compartimento de bagagem ao alto. Vou dar uma chegada no carro-restaurante. Algum quer ir 
comigo?
      Nesse momento, o trem comeou a movimentar-se.
      - No precisa, interveio Marta, acomodando-se mais no assento e olhando pela janela. Na primeira classe, eles vem servir a gente aqui.
      A garota olhou para a amiga e em seguida para a tia.
      - A senhora se importaria se eu fosse ao carro-restaurante pra comer algo? insistiu ela. Estou mesmo com muita fome.
      A verdade e que estava sentindo o estomago vazio e comeando a enjoar. No sabia se aquilo era consequencia do vo ou do terrvel pesadelo que tivera. Contudo 
sabia que, se tomasse um copo de leite, logo se sentiria melhor.
      - Ah, vai! replicou Marta. Vo as duas. Mas fiquem juntas e no conversem com desconhecidos. Aqui, levem este dinheiro!
      - Quer que a gente traga algo pra voc, tia? indagou Cris.
      - No, obrigada. Eu espero.
      Selena abriu a porta deslizante da cabine, saindo para o corredor estreito. Cris seguia logo atrs dela, as duas andando em fila. O trem ia ganhando mais velocidade 
e balanando um pouco. Chegaram ao fim do seu carro e abriram a porta, passando ao vago seguinte. Continuaram caminhando at chegar ao setor de refeies. Selena 
foi a primeira a entrar no restaurante e logo se acomodou no assento estofado da primeira mesa vazia que avistou. A mesa estava recoberta com uma toalha branca. 
No canto, junto a janela, havia um pequeno vaso com um boto de rosa amarela. A flor tinha a "cabecinha" inclinada, como que a cumpriment-las. Cris sentou-se do 
outro lado,  frente de Selena.
      - Como e que voc est? indagou Cris, aproximando-se um pouco da amiga.
      - Estou sentindo um mal-estar no estmago, explicou Selena. Mas acho que, assim que comer, vou melhorar. E voc, como est?
      - Estou bem. Minha tia est te deixando irritada, n?
      - No, no. Ainda no! respondeu ela erguendo os olhos.
      Um rapaz alto, usando um bluso de moletom grosso, aproximava-se da mesa delas. A princpio, Selena achou que era o garom. Logo em seguida, porm, deu-se 
conta de que no. Usava roupas comuns, e no o traje caracterstico dos garons. Para seu espanto, o jovem parou junto a mesa delas, fez um educado aceno de cabea 
e perguntou:
      - Sprenchen SieDeutsch? (Falam alemo?)
      Cria abanou a cabea.
      - Somos americanas, explicou.
      - Ah! disse o moo, com os olhos fitos em Selena. Claro! So americanas! Que bom!
      - Ele tinha, um sotaque engraadinho, uma expresso muito agradvel. De repente, Selena sentiu que de fato estava do outro lado do mundo.
      - Acho que esqueci um embrulho a no seu banco, disse o rapaz.
      Selena baixou os olhos para o assento que ocupava e, realmente, bem no cantinho, junto a janela, havia um pacote, envolto em papel pardo e amarrado com um 
barbante. Pegou-o.
      - Aqui, disse, estendendo o objeto para o recem-chegado.
      O rapaz levou a mo ao peito.
      - Graas a Deus! exclamou.  um presente que estou levando para uns amigos. Estou de frias. E vocs?
      As duas garotas se entreolharam, mas nenhuma respondeu imediatamente.
      - Ah, desculpe! interveio o desconhecido. Interrompi a conversa de vocs. Querem que eu v embora?
      - Oh, no! Tudo bem! falou Selena. Acabamos de chegar agorinha mesmo. Ainda no estamos bem "sintonizadas" com o fuso horrio e tudo o mais.
      Nesse momento, sentiu que Cris lhe dava um chute na perna por baixo da mesa. Contudo o rapaz lhe parecia completamente inofensivo. Era simptico, tinha o rosto 
comprido, o queixo fino e as mas da face salientes. O cabelo era bem escuro, todo penteado para trs, com exceo de uma mechinha em forma de quarto crescente, 
que lhe cara na testa. Tinha olhos castanho-escuros, mas um olhar luminoso, cheio de vitalidade. Parecia ter uma personalidade muito interessante.
      - Meu nome  Alexander, disse ele, apresentando-se e estendendo a mo para Selena.
      A garota correspondeu ao cumprimento e recebeu um aperto de mo firme e decidido.
      - Selena, disse ela.
      - "Sa-le-na"? repetiu ele.
      - No. Selena, replicou a garota.  um nome bem comum na Caifrnia.
      - Ah, voc mora na Caifrnia? quis saber Alexander.
      - No, explicou ela. J morei. Atualmente moro numa cidade chamada Portland, no Oregon. Sabe onde fica?
      - Claro, disse o rapaz. E voc? continuou ele, virando-se para Cris.
      A jovem hesitou por um instante, mas depois se apresentou.
      - Meu nome  Cris.
      - Cris! repetiu Alexander, pronunciando o "r" sem nenhum problema. Tambm mora na chuvosa Portland?
      - , interveio Selena, j vi que sabe tudo sobre Portland.
      A garota sorriu para o rapaz e em seguida para a amiga, tentando fazer com que ela se descontraisse. Entretanto a jovem permaneceu com os lbios cerrados, 
olhando para as mos. Selena calculou que ela estava se lembrando da recomendao da Tia Marta, no sentido de no conversarem com desconhecidos. Contudo agora estavam 
na Europa. E numa viagem de trem, era normal os passageiros travarem contato uns com os outros. O que poderia acontecer? Achava que Alexander no representava o 
menor perigo. Parecia totalmente inofensivo e bastante interessante.
      - Eu moro na Caifrnia, explicou Cris, aps uma pausa meio constrangedora.
      Nesse momento, o garom aproximou-se da mesa delas e, falando em alemo, indagou o que elas iam querer.
      - Com licena, interveio Alexander.
      Num tom de voz grave, ele se dirigiu primeiro ao garom e depois s moas.
      - Vos vo pedir o caf da manh? indagou ele.
      - Bom, a gente s queria um sanduche, replicou Selena. E leite.
      Alexander dirigiu-se ao garom falando em alemo e, afmal, fez um aceno de cabea e concluiu:
      - Danke! (Obrigado!)
      Selena deslizou no banco, chegando mais para o canto, dando lugar para o rapaz.
      - Quer se sentar conosco? indagou.
      - Se as duas permitirem, quero, respondeu ele, sentando-se perto de Selena.
      A garota notou que o bluso de moletom dele era de um tecido bem grosso. No parecia nada com os dos Estados Unidos.
      - Voc  daqui mesmo? indagou Selena, resolvendo que estava na hora de tomar a iniciativa das perguntas.
      - No, estou a passeio. Vou visitar alguns amigos em Basilia. Minha me  de l, e tenho muitos parentes nessa cidade. Meu pai  russo. Moro em Moscou h 
sete anos. Antes eu morava em Basilia.
      Alexander recostou-se mais no banco e fitou Selena, dando um sorriso suave.
      - Se uma mora num estado e a outra, no outro, como  que se tornaram amigas?
      - Ficamos nos conhecendo em Janeiro, na Inglaterra, quando estavamos fazendo uma... principiou Selena, mas aqui ela parou. Ns somos crentes, prosseguiu. Estavamos 
fazendo uma viagem missionria.
      Um sorriso clido estampou-se no rosto forte do rapaz. Ele deu uma risadinha amistosa e em seguida falou:
      - Vocs nem vo acreditar, disse ele rindo. Tambm sou crente. Faz quatro anos.
      Selena sentiu-se aliviada e ao mesmo tempo muito satisfeita. As duas logo se puseram a acompanhar Alexander na risada.
      - Ei! exclamou Cris. Eu diria que isso e uma "coisa de Deus", Alexander!
      -  mesmo! disse ele. Mas, por favor, pode me tratar por "Alex". Que beleza! Sendo crentes, a conversa fica bem melhor, no ?
      -  sim, concordou Selena.
      Ela percebeu, com satisfao, que Cris relaxara a tenso. No precisavam ficar preocupadas com relao ao rapaz. Ela j notara que, quando se achava longe 
de casa, fora do contexto familiar, aprendia a confiar mais em Deus. J vivera muitas situaes, em ambientes estranhos, em que o Senhor a protegera e cuidara dela. 
Agora Deus mandara ali um rapaz crente, com quem ela e Cris partilhariam sua primeira refeio na Alemanha.
      O garom chegou  mesa deles e parou para servi-los. O homem "danava" um pouco, devido ao balanco do trem. Com gestos lentos, colocou no centro uma cesta 
com alguns pezinhos de casca crocante. Ao lado, ps uma travessa com fatias finas de presunto e queijo, e uma tigela com vrias embalagens individuais de manteiga 
e gelia. Em seguida,  frente de cada um deles, colocou um bulezinho de caf e, para Selena, deu tambm uma vasilhinha com leite.
      - Foi isso que voc pediu? indagou a garota a Alex.
      - Foi, respondeu ele. No era isso que queriam? Voc disse que queria leite, mas no era para por no caf.
      - Est muito bom, interveio Cris prontamente.
      - , est bom, sim, concordou Selena.
      Pensou se seria falta de educao derramar o leite na xcara onde deveria tomar o caf e beber todo ele puro.
      - Quero lhes dizer algo, principiou Alex, servindo-se de caf e olhando longamente para Selena. Voc tem um ar de pureza que acho lindo, alis, as duas tem. 
Tenho a sensao de que estou vendo as primeiras tulipas que brotaram na primavera.
      Selena tentou conter o riso, mas no conseguiu. Caiu na gargalhada. Teve a impresso de que, em sua testa, devia haver um plaquinha com os dizeres: "Tenho 
dezesseis anos e ainda no fui beijada".
      - Ser que ofendi vocs? indagou o rapaz, olhando para Cris.
      - No, replicou a jovem. Foi muito legal o que voc disse. S que a gente no estava esperando isso.
      Selena procurou controlar-se.
      - Voc  sempre sincero assim? indagou. At com quem conhece h pouco tempo?
      - Sou, respondeu o rapaz em tom srio.
      Selena reprimiu a vontade de rir.
      - , creio que  mesmo, disse. Desculpe por eu ter rido.  que no estou acostumada a ver rapazes iguais a voc.
      - E eu tambm no estou acostumado a ver garotas como vocs. E isso  um elogio, viu?
      Selena tomou um golinho de seu caf, que na verdade era mais leite do que caf.
      - As duas devem ter uma poro de admiradores, que fazem uma fila comprida, cada um aguardando sua vez.  assim? Eles fazem fila na porta da sua casa?
      Quando Alex disse isso, Selena estava com a boca cheia de caf e quase cuspiu tudo, pela vontade de rir. Contudo engoliu rapidamente o liquido morno e replicou:
      - Cris ja encontrou o amor da vida dela. Mas eu ainda estou entrevistando os candidatos da minha fila.
      O rapaz endireitou-se no banco e ergueu o queixo. Afastou a mecha de cabelo que lhe cara na testa e disse:
      - Ento vou entrar na fila. E j estou preparado para a entrevista. Qual  a primeira pergunta?
      Selena nunca se sentira to encantada. Tapou a boca coma mo para no disparar a rir de novo.
      - Est bom, disse. A primeira pergunta e a seguinte: o que  isto? indagou, pegando um dos pacotinhos que estavam perto da gelia.
      - Ah, como  que chama isso? falou ele meio gaguejante. Ah, no sei o nome disso na sua lngua.
      Selena abanou a cabea, dando estalidos com a lngua.
      - Tsk, tsk! fez ela. Sinto muito. Ter de voltar para o fim da fila.
      Alex soltou uma risada.
      - Pra saber, tera de experimentar, explicou o rapaz. Passe um pouco no po.
      As duas garotas provaram um pouco.
      - Parece queijo cremoso, comentou Cris.
      - Creme de queijo, isso mesmo! exclamou o rapaz. Agora sou eu quem vai fazer uma pergunta.
      Selena lambeu um pouquinho do creme adocicado que lhe ficara no lbio.
      - Claro, disse, pode perguntar.
      - Como voc faz para o seu cabelo ficar assim?
      - Assim... como?
      - Nunca vi um cabelo assim... to bonito!
      Novamente a garota abanou a cabea. Em seguida olhou para Cris e comentou:
      - Tem cara que faz qualquer coisa pra entrar na frente da fila!
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Trs
      
      Selena abriu a porta deslizante da cabine. As duas garotas entraram juntamente com Alex, que teve de abaixar a cabea para passar na porta.
      - Marta! disse a garota. Este aqui e o Alex.
      - Prazer em conhec-la, disse o rapaz, estendendo a mo na direo dela.
      Marta ignorou o gesto dele.
      - Onde vocs conheceram este rapaz? indagou ela para as jovens.
      - No carro-restaurante, explicou Selena, com ar tranquilo. Ele tomou caf conosco.
      A tia de Cris fez uma expresso de espanto. Alex abaixou a mo.
      - Desculpe, interveio ele. No queria incomodar. Vou embora. Tive muito prazer em conhec-la, "Salena!.
      Ele pegou a mo da garota, mas, em vez de dar-lhe um cumprimento, ficou a segur-la.
      - E voc tambm, Cris, continuou ele, fazendo um aceno de cabea para a outra, sem largar a mo de Selena. Talvez a gente possa se ver de novo muito breve.
      -  pouco provvel, replicou Marta friamente.
      O rapaz sorriu. Lentamente foi soltando a mo da garota, fez um amistoso aceno de cabea para todas e em seguida saiu.
      - A senhora no precisava "espant-lo" desse jeito, comentou Selena, sentando-se na poltrona logo a frente de Marta.
      Ainda sentia na mo o calor da de Alex. A tia de Cris olhou-a com uma expresso de irritao e de espanto ao mesmo tempo.
      - Espere a, replicou. No entendi. Eu disse a vocs para no conversarem com estranhos, e agora me aparecem aqui com um alemozinho malvestido e ainda querem 
que eu fique contente com o que fizeram?
      - Ele no  alemo;  russo, apressou-se a explicar Selena, falando meio entre os dentes.
      - Russo!? exclamou Marta, com expresso de choque rosto. Que  isso, gente? Vocs foram conversar logo com um russo?
      - Tia Marta, interveio Cris em tom calmo, pode at parecer que desobedecemos a senhora, mas no. Ns ficamos conhecendo o Alex no carro-restaurante. Ele tinha 
esquecido um embrulho no banco.
      - Bem de propsito! comentou Marta.
      - No, tia, respondeu Cris. No foi de propsito, no. Ele  um cara muito legal. E crente tambm. Ns nos sentimos muito bem na companhia dele. Se a senhora 
tivesse conversado um pouco com ele, tambm teria gostado. Na verdade, no fizemos nada que fosse contra as suas ordens.
      - Eu falei para no conversarem com desconhecidos. Vocs me desobedeceram deliberadamente. Como  que vai ser nossa viagem se as duas no fizerem o que quero?
      Selena mordeu o lbio para no responder. Cris estava sentada ao lado dela.
      - Olhe aqui, Tia Marta, principiou a jovem, ns duas ficamos muito alegres por ter vindo fazer esta viagem com a senhora. Mas a verdade  que j tenho dezenove 
anos e j viajei pela Europa de trem, sozinha. Acho que a senhora sabe que pode confiar em mim. E se no tratar a mim e a Selena como adultas, esta viagem vai ficar 
insuportvel.
      - Vou trat-las como adultas assim que comearem a agir como tal. Quem age como adulto no vai logo conversando com um desconhecido russo.
      - Ele  russo s por parte de pai, afirmou Cris. A me dele  sua. Alis, ele foi criado aqui em Basilia.
      - Ah, quer dizer que assim est tudo certo! disse Marta em tom de ironia. No quero vocs duas conversando com desconhecidos. Entenderam?
      Cris e Selena se entreolharam e depois fizeram que sim.
      - 'T bom, tia, replicou Cris. Vamos obedecer.
      A jovem recostou-se na poltrona, soltando um suspiro ruidoso e cruzando os braos. Selena olhou para a amiga e viu que ela fechara os olhos. Parecia que esse 
era o nico jeito de se "desligar" das implicncias de Marta. Selena seguiu o exemplo de Cris.
      Alexander! pensou a garota sorrindo. Por que Marta teve de espant-lo? Quero v-lo outra vez! Esse rapaz tem algo de muito especial. Certamente vamos v-lo 
quando desembarcarmos, j que ele tambm est indo para Basilia. E j lhe dissemos onde vamos ficar hospedadas, portanto ele pode vir me procurar. Tenho certeza 
de que vir.
      - Quando ser que vo trazer o caf? indagou Marta. Estou morrendo de fome. O servio de bordo nestes pases  pssimo, comparado com o nosso. Alis,  horrvel!
      - Quer que a gente v buscar algo para a senhora, tia? perguntou Cris.
      - No, Cristina. Sei muito bem o que esto querendo fazer, respondeu a tia. No; no vai sair para se encontrar com aquele amigo estrangeiro, no. Fiquem aqui 
na cabine, as duas. Esto de castigo agora; e no vo sair.
      Selena compreendeu que no saberia calcular o quanto Cris devia estar se sentindo humilhada. J era horrvel a tia dizer, na presena da amiga, que elas estavam 
"de castigo". E ainda por cima, Marta o fizera justamente quando Cris estava querendo prestar um favor  tia.
      O trem comeou a diminuir a marcha. Selena olhou para fora e viu que estavam chegando a uma estao. Avistou uma placa com o nome da cidade, mas no conseguiu 
l-la direito. De um lado e outro da estao, viam-se vrios trilhos. Passageiros apressados corriam pelas plataformas. Em diversos pontos, havia as costumeiras 
placas publicitrias, com propaganda de refrigerantes, chocolates e cigarros - tudo em alemo, claro. Selena tentou decifrar algumas palavras para ver se entendia 
algo. Pensou em como gostaria de saber outras lnguas. Estudara espanhol nos primeiros anos do segundo grau, mas no tinha certeza se saberia conversar nesse idioma, 
caso precisasse. Ficara admirada com Alex, ao saber que ele falava vrias lnguas. E se expressava muito bem em ingls, inclusive. Era um rapaz to legal!
      Nesse momento, a porta da cabine se abriu. Por um instante, Selena teve esperanas de que fosse Alex. Achou que talvez ele houvesse tido coragem de voltar, 
apesar da fria recepo de Marta. No. Era um senhor de cabelo grisalho, que carregava uma pasta preta. Ele pegou sua passagem, para verificar o nmero da poltrona, 
e em seguida guardou-a novamente no bolso do palet. Ainda parado  entrada, cumprimentou-as em alemo.
      Marta deu um sorriso meio tenso e ficou a olh-lo. O homem correu os olhos pela cabine, dando um educado aceno de cabea para cada uma. Afinal, dirigiu-se 
a Marta, ainda em alemo, apontando para o assento junto a janela. Ela no respondeu.
      - Acho que a senhora est no lugar dele, disse Selena.
      - Isso mesmo, interveio o recm-chegado, falando na lngua delas. Essa poltrona  a minha, mas no tem importncia. Eu sento aqui.
      A tia de Cris fez um aceno agradecendo.
      - Acredito que as trs so irms e esto viajando juntas, principiou o homem.
      - No! No somos irms, no, explicou Marta com uma risada. Esta aqui  minha sobrinha e a outra jovem  amiga dela.
      - Pois as trs parecem irms, insistiu ele.
      O homem tinha uma voz melosa e um olhar insinuante. O aroma de sua loo aps  barba era forte demais; chegava a ser enjoativo.
      Oh, no pensou Selena, girando os olhos. Ser que esse cara pensa que  um gal irresistvel? No acredito que a Marta esteja praticamente entrando nojogo 
de galanteios dele! Eu e a Cris pelo menos no ficamos de palavrinhas melosas com Alex. Nossa conversa com ele foi at profunda. Como  que a Marta pode achar ruim 
conosco se ela prpria est agindo assim com um desconhecido?
      - Vamos para Basilia, disse a tia de Cris. Talvez voc possa indicar-nos um bom restaurante. Os comissarios ainda no trouxeram a refeio para ns at agora. 
E estamos todas com fome.
      - ; nesta parte do trajeto o servio de bordo no e muito bom, explicou o homem. Alis, eu at j ia l tomar um caf. Quer que eu traga para todas vocs?
      - Pra mim no precisa, no, disse Cris.
      - Nem pra mim, ajuntou Selena.
      - Seria muita bondade sua, Sr...., falou Marta, fazendo uma pausa e esperando que o homem se apresentasse.
      - Gernt, respondeu ele prontamente. E voc ...?
      - Marta, disse ela, falando devagar e com bastante clareza, acgando que, sendo ele estrangeiro, talvez no conseguisse compreender seu nome.
      Antes, porm, que Gemot se levantasse para ir buscar o caf, apareceu um garom a porta, empurrando o carrinho de refeies. O desconhecido pegou um caf e 
um pozinho para Marta, insistindo em pagar. Depois, comprou tabletes de chocolate para todas elas.
      E a viagem prosseguiu. Durante algum tempo, cerca de uma hora, Selena ficou sentada quieta, fingindo que dormia. Na realidade, chegou a cochilar, mas continuava 
ouvindo o dilogo adocicado de Marta com Gernot e, por isso, no caiu no sono.
      Isso  muito engraado! pensou. Marta ps a gente de castigo aqui, s porque conversamos com Alex no restaurante. E foi um papo sem nenhuma maldade. Agora 
ficamos fechadas aqui dentro desta cabine ouvindo essa mulher de meia-idade mantendo um dilogo meloso com esse sujeito de "fala macia", de loo malcheirosa!
      Pensando no que poderia acontecer em seguida, a garota comeou a ficar tensa. No tinha a menor idia do que Cris estaria pensando e sentindo. No via a hora 
de o trem parar para as duas poderem conversar sobre aquilo tudo. Alis, j deviam estar quase chegando a Basilia.
      Olhando para fora, Selena via colinas verdejantes e, vez por outra, uma casinha em estilo antigo, com detalhes de madeira na fachada. Para o sul, via-se uma 
imensa floresta de pinheiros altos. Devia ser a Floresta Negra. Se fosse, isso significava que j se achavam bem perto de seu destino, pois a cidade de Basilia 
ficava nos limites dessa regio.
      Pensou se Alex tambm estaria olhando a paisagem nesse momento. Ser que se achava do mesmo lado do trem? Ser que estava vendo aquelas serras maravilhosas 
e pensando nela, assim como ela pensava nele?
      Repassou toda a conversa que haviam tido no carro-restaurante, e o que falaram depois que pararam com as piadinhas. Alex dissera que estudara ingls sozinho, 
para melhorar o conhecimento da lngua, e depois aprendera francs tambm. Alm disso, falava russo, alemo e um pouco de italiano. Ele ja conclura o segundo grau 
e estava se preparando para entrar numa faculdade. Pretendia fazer Economia. Selena suspirou. O rapaz parecia ser muito inteligente e, ao mesmo tempo, muito legal.
      A paisagem tranquila continuava passando diante de seus olhos. A garota ficou a contemplar a relva verde, os animais pastando na encosta das colinas, os arbustos 
com frutinhas silvestres. Todas as casas tinham telhados vermelhos.  frente delas, crianas brincavam alegremente. Tudo parecia perfeito naquele mundo que lembrava 
um local cenogrfico. Se ela pudesse ver o Alex e conversar com ele mais uma vez, pensou, o seu mundo particular tambm seria perfeito.
      
      
      
      
      
Captulo Quatro
      
      Quando j estavam entrando em Basilia, Gernot com seu "maravilhoso" perfume, ofereceu-se par levar Marta e as garotas de carro at o hotel, convidou-as tambm 
para almoarem com ele no seu restaurante preferido. A tia de Cris recusou explicando que j tinham outros compromissos agendados. At esse momento, ela havia conversado 
animadamente com o estrangeiro. Contudo, ao ouvir a oferta dele, rejeitou-a imediatamente. Depois que desembarcaram, Gernot ainda permaneceu uns minutos ao lado 
delas, ajudando-as a recolher toda a bagagem e orientando-as sobre a direo que deveriam tomar.
      Tudo resolvido, Marta agradeceu-lhe e logo saiu caminhando em passos firmes pela plataforma superlotada. Selena fez o possvel para se concentrar em acompanh-la, 
mas de tempos em tempos virava-se para trs  procura de Alex. Tinha a certeza de que, se o encontrasse, seu corao iria dar um salto. Contudo ficaria contente 
se pudesse apenas v-lo, ainda que  distncia, dando-lhe um sorriso e um aceno.
      Entretanto no havia nem sinal de Alexander. No o viu na plataforma, nem no interior da estao, nem na fila da alfndega, nem na rua onde foram pegar um 
txi. Gernot tambm parecia ter evaporado. 
      Sentada no banco traseno, a garota ainda deu uma olhada para trs. Examinou o enxame de gente que circulava nas proximidades da estao. Nada de Alex.
      Talvez ele telefone para o hotel, cochichou-lhe Cris, inclinando-se para ela e interrompendo sua linha de pensamento.
      - Puxa! Estou dando tanto na vista assim? indagou Selena.
      - Parece que ele gostou muito de voc, no foi? perguntou a amiga.
      Selena sorriu timidamente.
      - Ele sabe em que hotel vamos ficar, continuou Cris, procurando consol-la. Sabe o que pretendemos fazer durante o resto da semana. Ele vai telefonar. Voc 
vai ver.
      A poucos quilmetros da estao, o txi diminuiu a marcha e parou.
      - Quanto ? indagou Marta assim que desembarcaram.
      Enquanto ela contava o dinheiro, as duas garotas pegaram as malas. Alguns minutos depois, j no quarto, a tia de Cris ainda reclamava do valor da corrida.
      - Nunca em minha vida peguei um txi to caro! disse ela.
      Consultou o relgio de pulso e fez um gesto para que as garotas fossem para o quarto delas, que era contguo ao seu.
      - Meninas, daqui a quarenta e conco minutos temos a entrevista com o diretor da escola. Rpido, vo se aprontar! Tambm vou me arrumar!
      Selena jogou-se na cama larga, coberta com uma colcha branca muito macia.
      - Arrumar! resmungou ela. Quero mais  dar uma boa dormida!
      - No! interveio Cris prontamente. Temos de ficar acordadas, lembra? V tomar um banho que voc desperta.
      - Pode ir voc, respondeu a garota. Vou tirar um cochilo!
      Cris foi para o banheiro e Selena relaxou na cama sof, sentindo-se como que flutuando. Recordou a sensao que experimentara quando Alex a olhara com admirao 
e como fora agradvel o contato da mo quente do rapaz.
      - Pronto! Agora  sua vez! falou Cris, dando um tapinha no p de Selena e interrompendo seus sonhos.
      - Como voc  cruel! Eu estava chegando na melhor parte do sonho, comentou a garota, virando-se na cama.
      Olhando a amiga com os olhos meio fechados, pegou uma almofada e atirou nela.
      - Errou! disse Cris. Vamos l! O banho foi timo, e quando voc vestir uma roupa fresquinha vai se sentir melhor.
      Selena se levantou com gestos lentos e demorados e foi caminhando para o banheiro meio tropegamente.
      - No vou conseguir ficar acordada, falou.
      - Vai sim, insistiu Cris. E se voc tiver juzo, estar pronta dentro de cinco minutos.
      - 'Ta bom!
      Selena esforou-se para sair daquele estado de sonolncia em que se achava. A ltima coisa que queria na vida era irritar Marta. Entrou no boxe, guarnecido 
de azulejos brancos e azuis. E afinal conseguiu tomar uma chuveirada rpida, pois no lavou a cabea. Segurou o cabelo com uma das mos para que no molhasse. Deu 
menos trabalho do que teria se o lavasse e depois tentasse arrum-lo. Sorriu consigo mesma ao se lembrar de que Alex dissera que seu cabelo era lindo. Ele era um 
cara diferente de todo mundo. Selena virou-se de frente para o jato d'agua, deixando-a escorrer pelo rosto. E, realmente, Cris tinha razo. Quando saiu do banho, 
sentia-se bem melhor.
      Vestiu um short e uma blusa de malha. Abriu a porta do banheiro e saiu soltando uma exclamao:
      - Pronto!
      Cris estava no meio do quarto, enxugando o cabelo com uma toalha. E tinha posto um vestido.
      - Ser que eu tambm tenho de por um vestido? Indagou Selena.
      - No; tudo bem. Voc pode usar o que quiser, replicou Cris. Mas como j sei o que minha tia quer que eu vista...
      - , desta vez acho que posso ir de short, continuou a garota, atirando as roupas usadas na cadeira que se achava perto da mesa. Mas, se tivermos de ir a algum 
lugar onde eu precise usar roupas mais elegantes, no vou ter o que vestir. No trouxe nem minha saia "indiana". Ela rasgou, lembra? Foi por isso que tive de pegar 
seu vestido amarelo emprestado para o casamento de Trcia.
      - No se preocupe. Voc est tima assim. Tenho certeza de que iremos fazer algumas compras aqui em Basilia.
      Cris remexeu em sua sacola de viagem e retirou dela uma bolsa de couro com ala tiracolo.
      - Voc est com seu passaporte a, e tudo o mais? continuou a jovem. A escola fica perto da fronteira, na Floresta Negra. Talvez precisemos apresentar os documentos.
      - Vou pegar o meu, disse Selena.
      Nesse instante, ouviram Marta batendo a porta com suas longas unhas. A garota calocou o sapato baixo e pegou a mochila.
      - Esto prontas, meninas? indagou a tia de Cris, abrindo a porta e entrando.
      Uma onda de um perfume forte veio junto com ela.
      - Selena, voc ainda no se aprontou? continuou a tia.
      - Eu falei com ela que pode ir assim, tia, explicou Cris prontamente. Ela no tem nenhum vestido. S shorts e jeans. A gente vai precisar fazer umas compras 
aqui.
      Imediatamente os olhos de Marta brilharam.
      - Excelente idia! exclamou. Quando voltarmos da escola, podemos talvez passar em algumas lojas.
      Na mesma hora, Selena entendeu algo. Quando tivesse conflitos com Marta, era s dizer-lhe que queria sair para fazer compras!
      - Cris, disse Marta, concentrando a ateno na obediente sobrinha, voc no vai sair com esse cabelo molhado, vai?
      - Ele acaba de secar no caminho, tia. Selena, esta com a chave do nosso quarto?
      E a jovem foi caminhando em direo ao elevador. Marta e Selena a seguiram.
      -  um hotel muito bom, comentou Cris, enquanto aguardavam que o elevador chegasse ao andar delas.
      - No  ruim, no, concordou a tia.  simples, mas bem limpo. Tudo muito certo e eficiente, como a maioria dos hoteis europeus. Mas, pelo preo, esperava que 
os quartos fossem um pouco maiores.
      - Pra mim, esta timo, insistiu Cris, jogando o cabelo para as costas.
      Seu gesto irritou a tia.
      - Voc, com essa mania de ter cabelo comprido... No sei como vai sair com esse cabelo ensopado. Por que esse elevador est demorando tanto? indagou ela, batendo 
a ponta do p impacientemente.
      Nesse instante, soou a campainha que havia no alto da porta e ela se abriu. Uma pessoa saiu do elevador: Alex.
      - Ola! disse ele. Eu j ia procurar vocs!
      Selena sorriu para o rapaz e em seguida olhou para Marta. O rosto da tia de Cris ficara vermelho. Ela parecia furiosa!
      - Foi muita bondade sua, disse a tia, mas estamos de sada. E com pressa.
      Com isso, ela passou pelo rapaz e entrou na cabine, logo apertando o boto do trreo.
      - Vamos, meninas! ordenou ela.
      Selena foi andando lentamente e passou ao lado de Alex.
      - Oi! disse para ele.
      O rapaz estendeu a mo e rapidamente tocou de leve nosdedos dela.
      - Desculpe, Alex. Estamos de sada, explicou Cris, procurando amenizar a situao.
      - , eu sei, replicou o rapaz. Vocs vo a Schwarzwald Volkschule, quero dizer, a Escola Popular da Floresta Negra. Meu primo me emprestou o carro dele. Pensei 
em lev-las l.
      Ele permaneceu do lado de fora do elevador, e as trs, dentro. Com um movimento brusco, Marta apertou o boto de fechar a porta.
      - No  preciso, obrigada, falou ela no momento em que a porta se fechava.
      Quase sem acreditar no que estava acontecendo, Selena desviou os olhos da tia de Cris e fitou o rapaz.
      - Sinto muito, falou ela no instante que a porta acabou de se fechar com um rudo surdo.
      - Sente muito? interveio Marta, olhando para a garota com expresso de espanto. Sente muito de qu? De ter dito a um desconhecido aonde vamos? , voc deve 
estar mesmo muito sentida! No entendo como vocs puderam ser to insensatas! E voc, continuou ela, olhando para Cris e apontando-lhe o dedo, voc sabe muito bem 
que no deveria ter uma atitude dessas. Por que deixou que sua amiga contasse para ele o que vamos fazer?
      - Fui eu que contei, respondeu a jovem em tom firme. Isso no  justo, Tia Marta. Alex  um rapaz muito legal. Estava apenas querendo nos ajudar. A senhora 
mesmo j disse que os txis aqui so muito caros. De que outro jeito podemos ir  escola?
      - , mas nos vamos de txi, claro. Pago qualquer preo pela nossa segurana. Seria loucura aceitar a ajuda de um rapaz totalmente desconhecido, quando estamos 
to longe de casa. Olha, se o Alex estiver no saguo quando o elevador abrir, vocs duas faam o favor de no conversar com ele. Se ele insistir, vou dar queixa 
 gerncia do hotel, concluiu ela, bufando.
      Nesse momento, a porta do elevador se abriu. Alex no estava por ali. Selena ficou alegre por isso. Receava que ele tivesse algum problema se Marta desse queixa 
dele. Ao mesmo tempo, porm, sentiu tristeza. Certamente o rapaz no iria ter coragem de aparecer mais uma vez, correndo o risco de irritar a tia de Cris de novo. 
Ento, era bem provvel que Selena nunca mais o visse. A no ser que...
      No, fez Selena mentalmente para afastar o pensamento que lhe ocorrera. No seria certo sair escondido para se encontrar com ele. Entretanto o rapaz deixara 
claro que desejava v-la novamente. Tinha dado uns olhares significativos para ela. Passara a mo nos dedos dela, e aquele contato fora maravilhoso!
      Talvez eu possa descer hoje  noite para o saguo e dar um jeito de mandar um recado pra ele vir se encontrar comigo aqui, pensou ela. Poderamos conversar 
aqui mesmo. Assim no estaria exatamente saindo escondida.
      Antes, porm, que seu pensamento fosse mais longe, ela se recordou de que estava ali sob a responsabilidade de Marta, como convidada desta. Os pais dela haviam 
dado muitas recomendaes pelo telefone, antes da viagem. Relembraram-lhe de que deveria sempre respeitar Marta e falar a verdade com ela.
      "Esperamos que, quando tiver de tomar alguma deciso, voc aja com a Marta da mesma forma como age conosco", disseram eles. "No pense, Selena, que nessa viagem 
voc j poder agir com toda independencia. No."
      , mas se meus pais estivessem aqui, pensou ela, racionalizando, eles no se importariam de eu me encontrar com Alex. Iriam gostar dele.
      Marta fez sinal para um txi que passava e elas o tomaram. As trs ficaram em silncio durante todo o trajeto at a escola, que distava uns dezoito quilmetros 
dali. Entretanto o corao e a cabea de Selena no estavam calados. Por que ela deveria obedecer quando a pessoa que tinha de respeitar no estava sendo justa?
      Selena tinha certeza de que, se estivesse na companhia de sua me, e no na da tia de Cris, aquela cena to constrangedora no teria acontecido. A me dela 
teria gostado do Alex imediatamente. A garota sabia que sua me compreenderia se ela tivesse de desobedecer a Marta, j que esta se mostrava to severa. Isto , 
se ela conseguisse desobedecer.
      A cabea dela estava a mil, pensando no que poderia fazer. Ela e Cris ocupavam um quarto separado. Talvez Alex tentasse ligar para elas. Tinha a impresso 
de que o rapaz no iria desistir com facilidade. E Cris certamente ficaria do lado da amiga. Rapidamente Selena arquitetou um plano. Era meio arriscado, mas tinha 
de correr certos riscos.
      Queria ver Alex de novo a qualquer custo.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Cinco
      
      - E aqui  a sala dos computadores, disse o Sr. Pratt, o diretor da escola, ao final da visita que faziam pelas dependncias dela.
      Era um homem grandalho, de modos amistosos, e Selena gostou dele assim que o viu. Tinha a sensao de que Cris tambm gostara, o que era muito bom. Como a 
jovem teria de tomar uma deciso em pouco tempo, aquela primeira impresso iria pesar bastante. Pelo fato de o diretor ser um homem to agradvel, Cris estaria mais 
inclinada a gostar da escola.
      - Os alunos tm de entregar todas as tarefas em disquetes, continuou ele. Obviamente, aqueles que possuem um laptop podem utiliz-lo. Mas nosso equipamento 
aqui se acha ao dispor de todos.
      - Excelente! exclamou Marta, admirando as fileiras de mesinhas com os aparelhos. No h dvida de que se trata de uma tima instituio. Tenho de confessar 
que no esperava que fosse to moderna.
      - , replicou o diretor, aqui na Europa nos demoramos um pouco para aceitar a idia de cada um ter o prprio computador. Mas nossa escola tem tido a bno 
de contar com diversos mantenedores generosos. E eles se empenham para que estejamos modernizados e possamos atingir adequadamente nossos objetivos educacionais. 
Nossos cursos, todos de nvel superior, so reconhecidos, e precisamos ter situaes de aplicao prtica do aprendizado.
      Nesse momento, o Sr. Pratt consultou o relogio.
      - Por favor, me dem licena um momentinho. Tenho de ir ao meu gabinete. Estou esperando uma outra pessoa hoje, e ela deve estar me aguardando l.
      - No vamos tomar mais do seu tempo, interveio Marta. Alis, o senhor foi muito gentil em nos conceder sua ateno at agora. Mas tenho certeza de que a Cris 
deve querer conhecer os dormitrios. Ser que podemos marcar uma outra hora para visitar os alojamentos?
      - No ser preciso, no, respondeu o homem, podemos ir agora mesmo, se desejarem. S quero dar uma passadinha no meu gabinete enquanto estivermos indo para 
l.
      O diretor apagou a luz da sala e foi saindo com elas, conduzindo-as pelo longo corredor.
      - Quantos alunos vocs tm este ano? quis saber Cris.
      - No presente momento, estamos com cerca de oitocentos matriculados, explicou ele.  o maior grupo que j tivemos.  claro que, para muitos deles, esta escola 
 apenas um rgo central, onde mantm seus registros.
      - Como assim? indagou Marta.
      Temos vrias unidades, explicou ele, que chamamos de cursos "localizados". Os alunos se matriculam aqui, mas o ensino e o trabalho acadmico se desenvolvem 
em diversos lugares do mundo. Ns temos, por exemplo, cinquenta matrculados em nosso curso de Israel. Temos outros cem na Austrlia, que fazem Antropologia. Mais 
de um tero de nosso corpo estudantil se encontra nesses centros.
      - Eu no sabia disso, comentou Cris. O senhor pode me dizer algo sobre o orfanato de Basilia?
      - Claro. Alis, vocs pretendem ir l amanh, no ? Acho que eles as esperam por volta de 10:00h.
      Nesse instante, chegavam ao gabinete do diretor, e ele abriu a porta. Era um aposento pintado de cores brilhantes. O Sr. Pratt fez sinal para que entrassem.
      - Precisamos saber direitinho onde fica, interveio Marta, entrando na sala, para orientarmos o motorista do txi.
      Com o canto do olho, Selena notou que havia algum sentado num sof, junto a parede. Ele se levantou para cumpriment-las.
      - Eu posso lev-las, disse uma voz grave.
      - Alexander! exclamou o Sr. Pratt.
      O homem adiantou-se rpidamente para o rapaz e se ps a conversar com ele em alemo, falando bem depressa. Pareciam estar trocando cumprimentos calorosos.
      Selena sentiu o corao bater forte. Imediatamente olhou para Marta e viu que a tia de Cris tinha uma expresso de quem sofrera um forte abalo.
      - Ah, me desculpem! pediu o Sr. Pratt. Fazia muitos anos que eu no via este rapaz. Ele esta morando em Moscou agora. Alex, eu gostaria de lhe apresentar...
      Antes, porm, que ele concluisse a apresentao, o rapaz o interrompeu.
      - J nos conhecemos, disse ele, os olhos fixos em Selena. Talvez o senhor possa tranquilizar a tia de Cris. Diga para ela que no sou nenhum malfeitor.
      - Ah, eu no... principiou Marta gaguejante. Quero dizer, era uma situao meio estranha, era s isso. Hoje em dia, por mais cuidado que a gente tenha com 
a segurana, ainda  pouco, no ?
      O Sr. Pratt passou um brao pelo ombro do Alex e em seguida falou:
      - Eu lhe garanto que este rapaz  uma pessoa correta e altamente confivel. No precisa ter o menor receio com relao a ele. Alis, vamos fazer o seguinte. 
Iremos visitar o dormitrio e depois vocs viro tomar caf conosco.
      - Oh, no! Tudo bem! No  preciso, replicou Marta imediatamente.
      - Fao questo! insistiu o diretor. Gostaria muito que viessem  minha casa.
      - Obrigada! respondeu Cris tranquilamente.
      Ainda bem que uma delas estava com a cabea no lugar para aceitar educadamente o convite do Sr. Pratt. Selena no conseguia nem falar nada. Estava feliz demais. 
No parava de sorrir.
      Alex tambm parecia muito satisfeito. Assim que eles foram para o corredor, ele deu um jeito de se emparelhar com a garota. Saram pela porta principal e se 
dirigiram para o dormitrio. O Sr. Pratt explicou que aquela era uma das cinco grandes construes administradas pela escola. Havia um grande refeitrio onde os 
alunos faziam as refeies juntos. Aos sbados pela manh, todos eles tinham tarefas no cuidado da casa.
      Durante a visita ao prdio, Alex ficou o tempo todo ao lado de Selena, cheio de perguntas, como que fazendo uma "visita" a vida dela. Os dois ficaram um pouquinho 
atrs dos outros, e ele lhe indagou a respeito de sua familia, de seus estudos, de seu trabalho na confeitaria Mother Bear e, por fim, dos seus hobbies, que ele 
pronunciou "hobbits".
      - Meus o que? indagou a garota, dando uma risadinha.
      - Seus divertimentos. O que voc faz para se divertir? explicou ele. Voc sabe esquiar, por exemplo?
      - Sei, respondeu ela.
      - Ento esquiar  um divertimento pra voc.
      - Ah, sei. Um passatempo. , gosto de esquiar, sim. Alis, gosto de esportes em geral, graas ao meu pai e a meus quatro irmos.
      - E quais sao os que voc gosta mais? disse ele, abrindo a porta para Selena, pois nesse momento estavam saindo do prdio.
      A garota adorava ser tratada com cavalheirismo.
      - Meus esportes prediletos? repetiu. Gosto de fazer caminhadas e de acampar.
      - Ah, ento voc vai adorar a Sua. Temos de programar uma caminhada aqui.
      Selena ergueu os olhos para ele. Uma mecha rebelde do seu cabelo escuro estava se soltando do restante e se enroscando.
      Ele me lembra o Paul, pensou. No na aparncia, mas no jeito de ser. Ambos tinham personalidade forte. E Alex a fitava do mesmo jeito que Paul a olhara no 
dia em que se conheceram. S que Paul era mais velho. Alis, era muito velho para Selena. E se achava bem longe dali, na Esccia. Selena se encontrava na Sua, 
ao lado de Alex. Por que ento ficava pensando em Paul? E por que tinha de estar comparando Alex com algum? Era um rapaz maravilhoso, com um modo prprio de ser, 
e ela estava adorando receber as atenes dele.
      O Sr. Pratt foi conduzindo-os estradinha abaixo. Andaram quatro quadras pequenas. Passaram por uma horta muito bem cuidada, abarrotada de hortalias como ervilhas, 
alfaces, repolhos, etc. Havia at um pe de tomate-cereja amarrado a uma cerca baixa. Chegaram a uma casa alta e estreita, com estrutura tpica dos Alpes. Pararam 
 porta de entrada e ele disse:
      - Por favor, fiquem a vontade. A casa  de vocs.
      Em seguida, abriu a porta e gritou algo em alemo. Instantes depois, surgia uma senhora gorda, de aspecto severo, usando uma roupa simples e um avental. O 
diretor continuou conversando com ela em alemo, e Selena teve a impresso de que a mulher os fitava de modo significativo.
      -  a esposa dele? cochichou para Alex.
      - No, replicou o rapaz tambm cochichando. A mulher dele morreu uns anos atrs. Esta deve ser a empregada. Ele est lhe pedindo que prepare um lanche para 
ns. Ela esta dizendo que ele no avisou com antecedncia. Ele vai ver o que tem a para se comer.
      A garota teve vontade de rir, mas se conteve. Era to legal ter um tradutor s para ela! E mais legal ainda era o fato de ele estar cochichando ao seu ouvido!
      O Sr Pratt os conduziu para a sala de visitas, dizendo que voltaria da a alguns instantes. Os quatro se sentaram. Alex, Selena e Cris se acomodaram num sof, 
enquanto Marta preferiu uma poltrona de encosto alto. A sala era pequena, mas estava bem arrumadinha. Na parede, acima da lareira, havia um quadro retratando um 
brao de mar sobre o qual se via uma ponte muito bonita e elaborada. A moldura do quadro, em tom dourado, tambm era belssima. Selena se ps a examinar a tela demoradamente, 
e Alex se inclinou para ela e disse:
      -  a "Ponte dos Suspiros", de Veneza. Voc sabe, n? J esteve l?
      - No, respondeu.
      - Eu j, interveio Marta. Eu e o Robert estivemos l muitos anos atrs.  uma cidade linda, no , Alex? Tudo ali  muito caro,  bvio. Mas a comida  muito 
boa, no acha?
      Ningum respondeu. Parecia que os trs jovens se achavam abismados pela sbita mudana no modo como a tia de Cris tratava o rapaz.
      -  claro que gosto mais de Paris, continuou Marta. No existe outra cidade na Europa que se compare a ela. A comida, as lojas, os museus...
      - Ento a senhora iria gostar muito de Moscou, comentou Alex. A cidade  uma obra-prima. E falando de museu, no existe nada igual ao Hermitage, de So Petersburgo. 
A senhora precisa ir l para ver.
      Selena teve a impresso de que Marta ficou um pouco tensa. Sua expresso era clara. Dava para perceber que a idia de visitar a antiga Unio Sovitica no 
lhe agradava nem um pouco. Felizmente, nesse momento, o Sr. Pratt voltou trazendo um prato com biscoitos. Seu rosto estava avermelhado. Ao que parecia, o comando 
de sua prpria casa no estava em suas mos, como o da escola estava.
      - Desculpem-me por t-los deixado sozinhos aqui, disse ele. Frau Weber j vai trazer o caf. Todos aqui tomam caf, no tomam?
      Eles fizeram que sim, e Selena os acompanhou. A verdade era que no gostava muito de caf. No que dizia respeito a bebidas quentes, preferia ch, principalmente 
os de ervas com sabor de frutas. Ao que parecia, todo mundo na Alemanha tomava caf. O pai dela iria se dar muito bem ali.
      Afinal Frau Weber, ainda com expresso meio carrancuda, surgiu trazendo uma bandeja com o caf. Era um caf forte e escuro, servido em xcaras de porcelana. 
A mulher colocou a bandeja sobre a mesinha do centro e em seguida saiu, soltando um bufo de raiva.
      - Por favor, pessoal, disse o Sr. Pratt, recuperando a calma, sirvam-se. E ento, Alex, como vai sua famlia?
      Selena estava adorando ficar ali sentada ouvindo o rapaz falar. Com movimentos cuidadosos, ela colocou a xcara no colo e em seguida tomou um golinho. Apesar 
de ter misturado muito leite e de ter adoado bem, ele ainda lhe pareceu muito forte.
      O quente Sol de vero, entrando pela janela aberta, criava a sensao de que a sala era minscula. Selena se achava sentada entre Alex e Cris. Apesar de estar 
adorando ficar ali escutando o rapaz falar sobre a familia dele, ela daria tudo por um copo de gua gelada e um lugar mais perto da janela.
      E Alex continuava falando com muito carinho a respeito dos pais. Quando ele no sabia uma palavra na lngua das trs visitas, ele introduzia um termo em alemo. 
Em seguida, o Sr. Pratt o traduzia para que Marta, Cris e Selena no ficassem fora da conversa.
      Marta estava muito  vontade; voltara a ser a mulher agradvel e educada de sempre. Houve um momento em que ela at riu de um caso que o rapaz contou sobre 
sua irmzinha de seis anos. Selena se admirou tanto que deu uma cutucada em Cris, que, por sua vez, tambm lhe deu outra. Pelo visto, a tia de Cris estava vendo 
o rapaz com outros olhos, e isso significava que Selena poderia esperar o melhor.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Seis
      
      Nquela noite, porm, j de volta ao hotel, Marta derrubou todas as esperanas de Selena.
      - No precisa comear a achar, disse ela para a garota, que concordo com a idia de voc ter um namorinho com esse russo, no, ouviu, Selena? O que os seus 
pais iriam pensar?
      A garota sabia muito bem o que os pais iriam pensar. Tinha certeza de que eles a consideravam uma garota madura e com idade suficiente para tomar decises 
a respeito de seus namoros. E eles sempre gostavam dos amigos dela. De todos eles. Gostariam do Alex tambm.
      Antes, porm, que abrisse a boca para se defender, Cris saiu do banheiro e aproximou-se das duas. Estava de pijama e com a escova de dentes na mo.
      - Tia Marta, interveio ela, a senhora mesma viu que o Alex  um cara sensacional. Ele nos trouxe de volta ao hotel; levou-nos pra jantar e pagou tudo. Esse 
rapaz  legal demais! No tem problema nenhum a Selena fazer amizade com ele. Sou totalmente a favor, concluiu a jovem.
      - V escovar os dentes, Cristina, replicou Marta bruscamente. Essa conversa  entre mim e Selena.
      Em vez de obedecer, Cris adiantou-se e parou perto da amiga, que se achava sentada na cama. A tia estava em p, de frente para Selena. Assim Cris se posicionou 
entre as duas, como um "amortecedor".
      - Na verdade,  entre ns trs, insistiu ela. Selena  minha amiga e fui eu quem a convidou para vir conosco. Eu tambm estou gostando muito do Alex, tanto 
quanto ela. E amanh, quando ele vier nos pegar para nos levar ao orfanato, essa questo toda vai envolver ns quatro.
      Selena teve a impresso de que a escova que a amiga segurava estava ligeiramente trmula. Ser que Cris enfrentava a tia assim muitas vezes, ou no? Ou quem 
sabe, nesse momento, ela estava apenas dando a impresso de ser firme e corajosa?
      - Se a senhora concordar, tia, continuou Cris, eu gostaria que chegssemos a um acordo a respeito do Alex agora, para que amanh no tenhamos mais situaes 
constrangedoras. Esse rapaz  um crente firme. Parece que ele gostou da gente e no se importa nem um pouco de nos servir de "guia turstico". Eu gostaria muito 
que a senhora aprovasse nossa amizade com ele. Por favor, confie em ns e trate bem o Alex.
      - Eu o tenho tratado muito bem! exclamou Marta, caindo na defensiva.
      - S depois que a senhora ficou sabendo que o Sr. Pratt o conhecia e gostava dele, interveio Selena, falando com certa cautela.
      Contudo assim que ela acabou de falar, reconheceu que devia ter ficado calada, deixando que s a Cris tentasse acalmar a tia.
      - Voc no entendeu nada! respondeu Marta, virando-se bruscamente para Selena. Gente, por favor, entendam, vocs o conheceram no trem. Como  que poderiam 
saber que no corriam perigo com ele?
      Selena pensou um instante e depois respondeu tranquilamente:
      - Ele  crente!
      A tia de Cris ergueu os braos e olhou para o teto.
      - Por que ser que no consigo mostrar para essas duas sonhadoras inocentes como  que os homens so? Gente, no se pode confiar nos homens, no, independentemente 
do que eles disserem! E quanto mais depressa as duas "crescerem" e acreditarem no que estou dizendo, melhor para ns todas! concluiu ela, abanando a cabea e apertando 
os lbios com raiva.
      Parecia que ela estava querendo dizer mais alguma coisa, mas se conteve para no faz-lo.
      - Vocs no sabem de nada! soltou ela afinal. Vocs duas simplesmente no entendem nada!
      Em seguida, ela se virou e foi para o seu quarto, fechando firmemente a porta de comunicao que havia entre os dois aposentos. As duas garotas se entreolharam 
sem falar nada.
      - Que ser que ela queria dizer? indagou Selena. Ser que, quando ela era jovem, teve uma decepo amorosa com um rapaz e agora acha que tem de proteger a 
voc e suas amigas para que no cometam o mesmo erro dela?
      - Puxa! exclamou Cris devagar, jogando-se na cama com os olhos fitos na porta de comunicao.
      Ela ficou uns momentos em silncio e depois continuou:
      - , talvez voc tenha razo. Nunca tinha pensado nisso.
      - Seu tio parece ser muito legal, comentou Selena. No consigo imagin-lo causando sofrimento a sua tia. Deve ter sido algum outro namorado que ela teve antes 
dele. , pode ter sido um cara lindo da escola, que deu o fora nela.
      - Que imaginao voc tem! exclamou Cris.
      - Isso pode ter acontecido, sim, insistiu Selena. Ela j lhe contou algo assim?
      Cris encolheu as pernas, sentando-se sobre elas.
      - Houve uma poca em que achei que Tia Marta guardava algum segredo. A fiquei sabendo que ela tinha tido uma filha, pouco antes de eu nascer.
      - Est brincando! disse Selena, procurando uma posio mais confortvel na cama macia. E o que aconteceu?
      - A criaa era prematura e teve paralisia cerebral, ou algo assim. Morreu um dia antes de eu nascer.
      - Que pena! comentou Selena em voz suave.
      -  mesmo! concordou Cris.  por isso que minha tia me trata desse jeito. Um tempo atrs, minha me disse que ela faz por mim o que gostaria de ter feito pela 
filha.
      - E a Marta j conversou com voc sobre isso? quis saber a garota.
      - Nunca. Mame disse que ela no conversa sobre isso com ningum. Ela me contou algo, dizendo que eles no podem ter filhos, mas esqueci o que foi. Alis, 
conversamos sobre isso uma vez s, explicou Cris, jogando para trs o cabelo sedoso. Mas en nunca havia pensado no que voc disse agora a pouco. , pode ser, sim, 
que ela tenha sofrido alguma decepo com um cara, quando era jovem. E depois, ainda por cima, perdeu a nica filha que teve. Deve ser por isso que ela resiste tanto 
quando se fala de Deus.
      - Isso mesmo, concordou Selena. Acho que seria muito difcil confiar num Deus que deixa acontecer essas tragdias com a gente.
      Cris acenou afirmativamente com ar pensativo.
      - Mas tambm, principiou ela, muito do que acontece conosco  consequncia de nossos atos, e no de Deus deixar que nos sobrevenham tragdias.
      - Voc acha que foi isso que se passou com sua tia? indagou Selena, surpresa com o comentrio que a amiga acabara de fazer.
      - Bom, replicou Cris, com uma expresso seria nos olhos verde-azulados, todos ns erramos. Mesmo depois que entregamos a vida para Jesus, ainda continuamos 
com a tendncia de "seguir nosso prprio caminho". E se Tia Marta cometeu muitos erros no passado, grande parte do sofrimento e da raiva que ela carrega agora provvelmente 
 consequncia das decises que tomou na vida, e no atos de Deus.
      Selena apoiou o travesseiro na cabeceira da cama e encostou-se nele.
      - Estou curiosa pra saber o que foi, disse.
      - No tenha muita esperana, replicou Cris, levantando-se ainda com a escova de dentes na mo. Minha tia no se abre com ningum. Nunca.
      Enquanto a amiga escovava os dentes, Selena ficou a olhar para o teto, pensando. O que Cris acabara de dizer era como um desafio para ela. Havia muitos jeitos 
de fazer com que algum se abrisse. Um deles era provocar. Se Selena tivesse oportunidade, iria exercitar em Marta sua grande habilidade para discutir. Ningum deveria 
passar a vida toda to fechada assim. A tia de Cris precisava desabafar.
      Ento ocorreu-lhe um pensamento um tanto presunoso! E se Deus a tivesse trazido nessa viagem justamente para fazer Marta se abrir e remover a couraa de proteo 
que usava em torno dela mesma? E se ela, Selena, estivesse ali com a misso de ajudar Marta a conhecer o amor divino? Agradava-lhe a idia de que Deus a havia escolhido 
para realizar tarefa to importante.
      - Sabe o que mais? indagou Cris, retomando ao quarto e deitando-se na cama. Gostei da escola.
      Selena interrompeu suas fantasias de "herona" crist e voltou a "pisar no cho", concentrando-se no que a amiga dizia. Afinal, a verdadeira razo por que 
estavam ali era que Cris ficasse conhecendo a faculdade onde talvez fosse estudar. O mnimo que ela poderia fazer era dar todo o apoio a amiga, que deveria tomar 
uma deciso de tamanha importncia.
      - Ento me fale do que achou dela, enquanto vou me arrumando pra deitar, pediu Selena, remexendo na mochila  procura da escova de dentes e da camisola.
      Cris enumerou vrios fatores que considerava muito positivos na instituio. Enquanto Selena lavava o rosto e escovava os dentes, a jovem mencionou diversas 
razes pelas quais achava que deveria vir estudar nela.
      - , interveio Selena, parece que voc gostou muito da escola. Ento, por que ainda est com uma certa hesitao? continuou ela, voltando para a cama e afofando 
o travesseiro. Puxa, que cama deliciosa!
      - , sei disso, concordou Cris.  como se estivessemos flutuando em uma nuvem. Bom, ainda no tenho certeza se virei para c porque...
      - No precisa dizer, interrompeu Selena.  por causa do Ted, no ?
      - Claro!
      - O que ele acha de voc vir estudar aqui? Na semana passada, ele disse que voc  quem teria de decidir. Ele j lhe falou o que realmente pensa?
      -  isso que ele realmente acha, explicou Cris, colocando o brao sob a cabea. Um dia antes de viajarmos, ele disse que, se for para continuarmos juntos - 
que eu entendi assim: "se for para nos casarmos" - esse ano que vamos passar longe um do outro no vai mudar nada entre ns. Falou que isso at vai ajudar pra que 
a gente d mais valor um ao outro, como aconteceu quando ele foi pra Espanha. Ns ficamos ainda mais apaixonados.
      - Acho que vocs dois se gostam muito. Por que simplesmente no se casam? J sabem que foram feitos um para o outro. Bom, pelo menos  o que todos acham. Vocs 
no pensam o mesmo?
      No rosto de Cris, surgiu uma expresso contemplativa, mas ao mesmo tempo alegre. Para Selena, era o retrato de uma jovem apaixonada.
      - Sabe o que ? O Ted sempre foi meio devagar, explicou Cris. Ou talvez eu devesse dizer "cauteloso". Os pais dele so divorciados. Ele quer ter muito cuidado 
antes de assumir um compromisso. Quer ter certeza de que pode cumprir o que promete. Sabe que nunca conversamos sobre casamento? At achei que, no casamento de Douglas 
e Trcia, ele iria falar, mas nofalou.
      - Eu tinha vontade de ter tirado uma foto de vocs dois quando saram da igreja de braos dados, comentou Selena. Os dois pareciam intensamente apaixonados. 
Eram os prprios "Romeu e Julieta". Acho que o Ted a ama muito, s que ainda no quer admitir.
      - , eu sei, concordou Cris, sorrindo. E eu o amo tambm, tenho certeza. Mas no sei e se ns dois estamos preparados pra nos casar. Creio que essa possibilidade 
de passar um ano longe dele vai ser muito boa pra ns.  como voc disse outro dia, a gente pode comear a se corresponder o que seria uma grande novidade.
      - E muito romntico tambm, comentou Selena. Sempre sonhei em manter uma correspondncia com um rapaz por quem estivesse loucamente apaixonada.
      - Com o Alexander, por exemplo?
      O comentrio de Cris espantou Selena. Na verdade, ela estivera pensando em manter uma correspondncia com Paul. Alguns dias antes, o irmo dele, o Jeremy, 
lhe dissera que achava que a garota deveria escrever para o Paul, que se encontrava na Esccia. Desde ento, Selena ficara estudando a idia. Na hora, o que ela 
respondera para Jeremy fora: "Diga a ele pra me escrever primeiro". Sabia que ele daria o recado ao irmo exatamente como ela o dissera. Sabia tambm que Paul era 
meio parecido com ela, e no deixaria passar um "desafio" desses.
      - , respondeu ela afinal, com o Alexander.
      - Espere a, interveio Cris, voc no parece ter ficado muito empolgada com a idia. No era bem no Alexander que voc estava pensando, era?
      - No, concordou Selena. Estranho, n? Depois de tudo que aconteceu hoje, era de se esperar que eu s pensasse nele. Mas estava pensando no Paul.
      Ela j havia contado a Cris a respeito do Paul, mas nunca tinha confessado, nem para essa amiga, nem para ningum, o quanto pensava nele.
      Cris foi abrindo os lbios num sorriso lento.
      - Eu no imaginava isso, disse a jovem com um ar de satisfao.
      - Imaginava o qu?
      - Que o Paul  o seu Filipenses 1.7, explicou Cris.
      - Meu o qu?
      - O seu Filipenses 1.7. Uma vez, o Ted me mandou um coco do Hava, com esse verso gravado nele. Diz assim: "Eu vos trago no corao".
      Cris ergueu-se um pouco na cama e se inclinou para Selena. Em seguida, num tom em que parecia estar falando de um grande segredo, cochichou:
      - Selena, voc traz o Paul no corao, no traz?
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Sete
      
      Na manh do dia seguinte, Selena tinha a sensao de que no havia dormido nada. Despertara vrias vezes durante a noite, por causa do sonho que estava tendo. 
Sonhava com Alex o tempo todo. Ouvindo o despertador tocar, teve de acordar, mas sua vontade era dormir de novo.
      - Quer que eu tome banho primeiro? indagou Cris.
      - Por favor, replicou ela. E demore bastante. E quando terminar no precisa me chamar, no, resmungou.
      Em seguida, virou para o canto. Puxou a coberta sobre a cabea para no ver a claridade do Sol que entrava pela janela.
      - Selena! disse Cris, sentando-se na cama dela e sacudindo-a de leve. Acorde! Estamos na Sua! O Alex vai vir nos buscar!
      - Pode ir tomar o seu banho, Cris, replicou ela.
      - J tomei, explicou a amiga. Voc dormiu de novo. Levante. Temos de sair daqui a pouco. Minha tia quer que desamos dentro de quinze minutos pra tomar caf.
      - 'Ta bom, 'ta bom, j vou, disse ela, sentando-se na cama e tentando abrir os olhos. Ser que o cansao que estou sentindo est estampado em minha cara?
      - Depois que tomar banho vai se sentir melhor, tenho certeza, falou Cris. Voc vai ver. O chuveiro  timo. Tem muita agu e ela est quentinha. Vai ser um 
dia maravilhoso!
      Cris levantou-se e se ps a remexer na mala, cantando em voz baixa.
      - No aguento gente que j levanta toda animada, comentou Selena, caminhando para o banheiro meio trpega. Lembre-se bem disso, Cristina, se quiser continuar 
viva.
      - O banho vai lhe fazer muito bem! respondeu a outra em voz alta para a amiga que saa.
      Selena no queria acreditar, mas era obrigada a reconhecer que Cris tinha razo. Ao sair do chuveiro, sentia-se com a cabea bem mais no lugar, e muito melhor 
do que se sentira dez minutos antes. Enrolou-se na toalha e entrou no quarto. Cris se achava junto  mesinha do canto conversando ao telefone. Usava um vestidinho 
leve e amarrara o cabelo no alto da cabea, fazendo um coque gracioso. Tinham visto muitas garotas da Sua com esse penteado. A amiga estava com uma aparncia bem 
elegante, mas que a fazia parecer cinco anos mais velha.
      Ela olhou para Selena e sorriu, ainda com o fone no ouvido.
      - At este momento, sim, disse ela. Agora de manh vamos ao orfanato... 'Ta; vou sim. Voc tambm... O.k. ... 'T; eu te ligo amanh neste mesmo horrio... 
Tambm estou com muita saudade de voc. Tchau!
      Recolocou o fone no gancho e ficou uns instantes a olhar para o aparelho.
      - Era o Ted? indagou Selena.
      Cris fez que sim.
      - Ele me ligou. Eu ia pedir a Tia Marta pra dar um telefonema pra ele daqui a uns dias, mas a ele me ligou. Disse que est com muita saudade e que esta orando 
por mim. Eu lhe falei sobre o Alex.
      - Falou? E o que foi que ele disse?
      - Disse que espera que voc entre nessa.
      - Entre em qu? indagou Selena, rindo e vestindo um short.
      - Voc sabe. O relacionamento com Alex. A aventura. A chance de fazer amizade com esse rapaz que  muito legal, pois assim voc poder "crescer" um pouco.
      Selena enfiou uma camiseta pela cabea e enrolou a toalha no cabelo para enxug-lo. Uma mecha loura "escapou" da toalha e lhe caiu ao lado do rosto.
      - Que  isso, menina? O Ted liga pra voc l da Caifrnia, e voc "desperdia" o telefonema dele conversando sobre um suposto romance meu, que alis, ainda 
nem existe!
      - Mais ou menos, concordou Cris. Lembra-se do que voc me contou que seu pai lhe disse quando lhe deu o anel do compromisso de pureza?
      A garota baixou o olhar para a mo direita, onde estava a aliancinha dourada.
      - Que foi mesmo? Que ele estava muito alegre comigo por eu ter estabelecido um padro elevado ou algo assim?
      - No. Foi o que ele falou depois que vocs sairam do restaurante. Voc me contou que seu pai lhe disse que deveria procurar divertir-se enquanto era jovem. 
Pois . Concordo com ele. Aceite todos os relacionamentos que Deus colocar no seu caminho. Procure curtir bem as amizades que puder ter. No precisa ter relacionamentos 
srios e profundos com os rapazes, no. Voc sabe disso.
      Selena pos as mos no quadril.
      - Voc e o Ted ficaram conversando sobre isso enquanto eu estava no chuveiro? Talvez fosse melhor se eu tivesse uma linha l no banheiro, pois assim iria ouvir 
esse recado da boca do prprio "conselheiro-mor".
      - No! replicou Cris, rindo. No conversamos sobre isso tudo, no. Eu  que fiquei pensando nessa questo, por causa do que seu pai disse. Acho que ele tem 
razo. Voc tem de aproveitar a oportunidade e abrir o corao para os outros, Selena.
      - E voc acha que eu no abro?
      Antes que Cris respondesse, elas ouviram a voz de Marta gritando do outro lado da porta:
      - J se arrumaram, meninas?
      - Quase! gritou Cris em resposta.
      A mulher abriu a porta. Parecia bem descansada e pronta para sair. Vestia uma saia jeans e uma blusa branca, muito bem passada. Quando viu Selena com a toalha 
no cabelo feito um turbante, ela franziu a testa.
      - Voc ainda no se aprontou, Selena!
      - Estamos quase prontas, repetiu Cris. A gente pode se encontrar com a senhora l embaixo daqui a alguns minutos?
      - Mas andem depressa, respondeu Marta com um suspiro forte. Vou esper-las no refeitrio.
      E no decorrer do dia, a tia de Cris teve de exercitar pacincia por diversas vezes. Parecia que estava sempre tendo de esperar pelas duas. Primeiro, as garotas 
haviam se atrasado para o caf. Depois, quando o Alex chegou, elas tiveram de voltar ao quarto para pegar as mochilas. Afinal, quando foram se encontrar com o rapaz 
no carro, Marta j se sentara no banco da frente, ao lado dele. O rapaz se levantou e foi abrir a porta de trs para Selena. No momento em que ela entrava no veculo, 
ele se inclinou ligeiramente e lhe disse em voz baixa:
      - Estou encantado de v-la novamente, "Salena".
      Antes que a garota comeasse a responder, ele passou as costas da mo de leve no rosto dela. Foi o gesto mais terno e carinhoso que ela j recebera. Seu corao 
quase parou.
      - Tambm estou muito feliz de v-lo de novo, replicou ela afinal, com a voz repentinamente meio rouca.
      Quando chegaram ao orfanato, Alex lhe ofereceu a mo para descer do carro. Contudo no ficou a segur-la por muito tempo. Foi abrir a porta para Marta, estendendo-lhe 
tambm a mo. A tia de Cris recusou educadamente o gesto do rapaz e saiu andando em direo a entrada do prdio,  frente de todos.
      - Estamos com dez minutos de atraso. Sabem disso, no ? falou ela. Talvez nem possam receber-nos mais.
      Contudo a funcionria que os recebeu tranquilizou Marta, explicando que no havia nenhum problema no fato de terem se atrasado. Poderiam fazer a visita  instituio 
naquela hora. A tia de Cris s conseguiu ir at ao final do corredor do primeiro andar. Ali, parou e pediu desculpas, dizendo que ainda esitava muito cansada da 
viagem. Os outros que fossem continuar a visita; e que o fizessem com calma. Ela iria sentar-se num banco que havia no jardim e ali ficaria a esper-los.
      Selena e Cris se entreolharam. Selena deduziu que talvez fosse dificil para Marta ver todas aquelas crianas, quando ela prpria perdera a nica filha que 
tivera. Podia ser tambm que a tia houvesse ficado meio incomodada por causa da maneira como a "guia" falara sobre a misso do orfanato e de suas linhas de pensamento. 
A mulher fizera muitas referncias  f crist.
      Selena estava sentindo um forte impacto naquela casa. Ao mesmo tempo, via-se bastante interessada. E sabia que Cris provavelmente experimentava a mesma sensao. 
A presena do Alex tambm estava sendo fundamental. Volta e meia ele dava mais algumas informaes adicionais, ajudando-as a ter uma compreenso mais profunda do 
trabalho. Ali havia muitas crianas da frica, mas a maioria era da Bsnia; algumas srvias, outras, croatas. Naquele momento, as notcias que Selena ouvira sobre 
a guerra da Bsnia ganharam corpo. As crianas que via ali no eram mais vtimas distantes. Agora testemunhava de perto o sofrimento delas. Era tudo muito real.
      Algo que perturbou a garota foi o grande nmero de pequenos abrigados ali - mais de 300, segundo a funcionria. E apenas trs por cento deles seriam adotados. 
Era muita criana! Selena sentiu o corao mover-se de compaixo.
      Anteriormente, o prdio do orfanato fora uma fbrica. Tinha capacidade para receber ainda mais rfos. A mulher informou que, alguns anos antes, eles haviam 
abrigado ali 425 crianas. A casa fora remodelada recentemente, recebera uma pintura nova e tambm novos conjuntos sanitrios para os banheiros. Alis, tudo era 
muito limpo e bem arrumado. Quando a viram por fora, na chegada, no haviam tido a mesma impresso. E o corpo de funcionrios, todos suios, parecia muito eficiente. 
Mostravam-se adequadamente uniformizados, parecendo marinheiros num navio muito disciplinado.
      Embora as crianas estivessem limpinhas e parecessem bem nutridas e cuidadas, Selena teve a impresso de que lhes faltava algo. Todas elas tinham o olhar triste. 
Queriam o amor do papai e da mame. A garota compreendeu que a imagem daqueles rostinhos iria ficar gravada em sua mente pelo resto da vida.
      Terminada a visita pelas dependncias do orfanato, que durara cerca de uma hora e meia, os trs jovens foram se encontrar com Marta. A tia de Cris parecia 
estar com a pacincia quase esgotada. Alex ofereceu-se para lev-las a almoar. Marta aceitou o convite, mas acrescentou, em tom brusco, que dessa vez ela iria pagar.
      - Sei de um lugar timo para irmos, disse o rapaz, abrindo a porta da frente para Marta. Vocs vo gostar muito!
      Em seguida, ele abriu a porta para Selena e pos a mo no ombro dela, dando-lhe um aperto de leve. A garota pensou se ele no estaria sentindo o mesmo que ela. 
Tinham visto o sofrimento causado pelas injusticas deste mundo. Qualquer prazer e satisfao pessoal que pudessem ter naquele momento iria parecer egosta. Na verdade, 
no sentia nem um pingo de vontade de almoar.
      Alex arrancou o carro, misturando-se com o trfego pesado da cidade. Era um maravilhoso dia de vero. Selena abriu a janela do seu lado. O vidro s chegou 
at o meio, mas isso foi suficiente para dar entrada aos cheiros e barulhos de Basilia. Passaram por um prdio velho, no alto do qual havia uma placa com os dizeres: 
"Exrcito de Salvao". Parecia ser uma loja na qual se vendiam roupas de segunda mo. Ali tambm deviam distribuir sopa de graa para os pobres, como se fazia na 
Highland House, onde a garota trabalhava como voluntria, uma vez por semana. , havia pobres e necessitados em todas as partes do mundo. Quase se desesperava ao 
pensar no quanto a humanidade precisava de socorro.
      - Aquela ali  a estao ferroviria onde desembarcamos? indagou Cris, interrompendo a linha de pensamento de Selena.
      -  sim, replicou Alex, apontando para o prdio.  a Badisher Bahnhof.
       entrada, viam-se dois lees de concreto, como que de guarda. Selena no se recordava de t-los visto no dia anterior, quando chegaram. Vendo os lees, lembrou-se 
de "Aslam", personagem do livro O Leao, a Feiticeira e o Guarda-Roupas. E pensando em "Aslam", obviamente, Jesus lhe vinha  mente.
      Senhor, todo esse sofrimento que h no mundo corta o teu coraco tambm? indagou. Deve cortar.
      Recordou-se da conversa que tivera com Cris na noite anterior. A amiga dissera que alguns dos problemas que encontramos na vida so "atos de Deus", circunstncias 
que talvez nunca possamos compreender. Outros, porm, sao consequnciaa de nossos pecados. Entretanto Selena sabia que aquelas trezentas crianas no haviam feito 
nada para estarem sem os pais hoje.
      Alex passou por uma ponte sobre o rio Reno. Selena ficou a contemplar as guas que corriam lentamente. Lgrimas lhe vieram aos olhos e ela piscou para afast-las. 
As crianas que vira naquela manh haviam se tornado o seu "prximo". No eram mais uma simples imagem na televiso. O sofrimento do mundo agora era real para ela.
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Oito
      
      - Um McDonald! exclamou Marta, quase gritando, com um tom de irritao. Voc nos trouxe a um McDonald!
      - , respondeu Alex todo satisfeito, procurando um lugar para estacionar na rua j superlotada. Os estudantes universitrios vm muito aqui. Achei que a Cris 
iria gostar de v-lo.
      - Ento, j vimos, comentou Marta. Cris, guarde bem onde ele fica. Agora vamos procurar um restaurante mais tranquilo.
      - No querem almoar aqui? indagou o rapaz, meio decepcionado. Restaurantes tranquilos tem por toda parte, mas McDonald so poucos.
      - Pois l nos Estados Unidos so muitos, retorquiu a tia de Cris. E se no gosto de almoar nem nos de l,  claro que no vou comer neste daqui.
      - Ento vamos seguir em frente, concordou Alex.
      Selena ficou satisfeita com a atitude flexvel do rapaz, embora tivesse gostado da idia dele. Seria interessante entrar nesse McDonald para ver a diferena 
entre ele e os de sua terra.
      Afinal, chegaram a um restaurante pequeno, com mesinhas na calada. Alex estacionou, e todos saram. Sentaram-se a uma mesa redonda, recoberta com um guarda-sol 
verde e branco. O cardpio era bastante limitado, e Marta se mostrou muito frustrada. Pediu apenas uma salada. Por sugesto do rapaz, Cris e Selena pediram um nurnberger. 
Tratava-se de um cachorro-quente pequeno, feito com linguia. Ele sugeriu tambm que, para beber, pedissem um Schwip Schwap. O refrigerante foi servido em copos, 
mas sem gelo. Estava quase morno.
      - Eu tinha me esquecido de que aqui na Europa  assim, comentou Cris, tomando um gole. Eles no colocam gelo na bebida.
      - Voc gosta de Schwip Schwap? indagou Alex. Quando eu era pequeno, era o refrigerante de que mais gostava.
      Selena achou a bebida doce demais. Era apenas uma "infeliz" mistura de laranja, limo e cola. E com a falta do gelo, o sabor estava muito sem graa.
      -  bem diferente do nosso, comentou.
      Ainda se sentia meio incomodada pelo que vira no orfanato. Na verdade, no tinha a menor vontade de comer.
      - Estou pensando na razo por que o pessoal do orfanato exige que os estagirios fiquem um ano inteiro la, disse Cris. Acho que, se ficarem l pouco tempo, 
deve ser muito duro para aquelas crianas.  o nico fator que est me desanimando de vir para c.
      - As crianas? quis saber Marta.
      - No; ficar com elas um ano e depois ter de ir embora, explicou a jovem.
      - Puxa, Cristina, retorquiu a tia, voc ainda nem decidiu se vem estudar aqui mesmo e j est ficando toda triste de ter de ir embora! Voc s vai saber com 
certeza se vier para c. Pode ser que, depois de passar um ano aqui, voc fique alegre de ir embora.
      - Voc ja resolveu se vem mesmo? perguntou Alex.
      O assento do rapaz era o nico que no se achava  sombra, e o sol lhe batia direto no rosto. Ele pusera culos escuros, e estava recostado na cadeira. Selena 
sentiu que ele era muito diferente dos seus colegas de escola, em Portland. Embora ele estivesse usando cala jeans e camiseta, parecia um jovem experiente e vivido.
      - No sei ao certo, respondeu Cris. H momentos em que minha vontade  de me matricular imediatamente e j comear a estudar agora. Em outros, meu desejo  
voltar pra minha terra e fazer de conta que isto aqui no existe;  produto da minha imaginao.
      - Mas no , no. Isto aqui existe de verdade, comentou Alex, assim como sua vida l na Caifrnia. Mas sabe, acho que o que realmente importa no  o lugar 
onde a gente mora, e sim que tudo em nossa vida gire em torno de Deus. Nosso tempo  muito curto.
      Selena deu uma espiada rpida para Marta, a fim de ver qual seria a reao dela diante das palavras do rapaz. A tia de Cris disfarou bem o que sentia.
      - Sabe, disse Cris, inclinando-se para diante ligeiramente e sem olhar para a tia, s vezes penso assim tambm. Tenho ouvido falar muito que estamos vivendo 
os ltimos dias e que a volta de Cristo est prxima. E fico pensando o que eu deveria fazer. Quero dizer, se estamos mesmo no final dos tempos, ento eu tinha de 
ficar mais preocupada  em falar de Jesus para os outros, e no em fazer faculdade, no ?
      Selena nunca havia pensado nisso.
      - Temos de ir embora, gente, interveio Marta.
      Alex fez que sim com um leve aceno de cabea. Em seguida, tirou os culos, inclinou-se para a frente e fitou Cris intensa-mente.
      - Seja qual for o trabalho que Deus lhe der, falou ele, nossa motivao sempre deve ser um... como  que se diz mesmo?
      Enfiou a mo no bolso traseiro da cala e pegou um pequeno Novo Testamento. Folheou-o por uns instantes, at encontrar o que procurava.
      - Ah, achei.  Um Pedro captulo 4, continuou ele.
      - Voc quer dizer Primeira Pedro? indagou Selena.
      - , Primeira Pedro, concordou ele, com um ar srio. Sei isso em russo e alemo, mas no na lngua de vocs. Significa algo muito forte, que vem direto do 
corao.
      - Espere a, interrompeu Selena. Tem uma Bblia aqui na minha mochila. Que verso que ?
      A garota pegou a Biblia e em seguida olhou para a de Alex. O rapaz estava apontando o texto em seu Novo Testamento em alemo.
      - Achei, disse ela. Primeira Pedro 4.7,8 diz assim: "Ora, o fim de todas as coisas esta prximo; sede, portanto, criteriosos e sbrios a bem das vossas oraes. 
Acima de tudo, porm, tende amor intenso uns para com os outros."
      - Isso! exclamou Alex. Era essa palavra que eu queria, intenso. Significa um amor forte e firme, no ?  nisso que voc tem de pensar, Cris. Tudo que fizer, 
faa com amor intenso.
      - Tem mais aqui, interveio Selena, continuando a leitura at o verso 10, "porque o amor cobre multido de pecados. Sede, mutuamente, hospitaleiros, sem murmurao. 
Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graa de Deus".
      - Temos de voltar para o hotel, disse Marta abruptamente.
      Os trs jovens se viraram para ela e a fitaram.
      - Por qu? quis saber Selena.
      - Se quer mesmo saber, estou com uma forte dor de cabea, respondeu a outra. Tentei me controlar para no estragar a alegria de vocs, mas agora preciso me 
deitar um pouco.
      - Ento vamos, disse Alex, levantando-se e guardando seu Novo Testamento no bolso.
      Em seguida, ele ajudou Marta a afastar a cadeira e lhe ofereceu o brao para que se apoiasse nele.
      - No estou to doente assim, replicou a tia de Cris bruscamente. Posso ir para o carro sozinha.
      Enquanto rodavam de volta para o hotel, Selena ia pensando nos versculos que haviam lido. "Tende amor intenso uns para com os outros." Ser que sei o que 
isso significa? Sei que amo os outros, mas ser que meu amor  forte e firme?
      Quando estavam quase chegando ao hotel, Alex, em tom bem calmo, perguntou a Marta:
      - A senhora permitiria que eu desse um passeio com Cris e "Salena" para elas conhecerem a cidade?
      - Ah, acho que no vai dar, no, respondeu ela. Alis, creio que agora vamos nos despedir de voc. Foi muito gentil conosco, e lhe agradeo.
      O rapaz parou o carro a entrada do hotel. Um porteiro uniformizado adiantou-se e abriu a porta do veculo para Marta, oferecendo-lhe ajuda para sair dele. 
Alex abriu a de trs para Cris e Selena. Pegou esta ltima pelo cotovelo e deu-lhe um aperto de leve.
      Selena fitou o rapaz bem dentro dos olhos escuros e pensou que, se naquele momento ele lhe pedisse para dar uma "escapada"  noite e se encontrar com ele, 
ela atenderia.
      - Tenho certeza de que a Tia Marta vai mudar de idia assim que melhorar, disse Cris, em voz baixa, para o rapaz. Muito obrigada por tudo, Alex, muito obrigada 
mesmo. No tenho palavras pra lhe agradecer, no apenas por ter-nos levado l, mas tambm pelo conselho e pelas palavras de estmulo.
      - Vamos, meninas! disse Marta, virando-se ligeiramente para trs. Vamos entrar. Tchau, Alex! E muito obrigada!
      O rapaz inclinou-se para Selena e encostou de leve o rosto dele no dela. Foi um gesto to repentino que a garota sentiu as faces se avermelharem.
      - Depois eu telefono, cochichou ele.
      Selena acenou que sim. Alex entrou no carro e arrancou. A garota ficou a olh-lo at desaparecer. Entrou em silncio e permaneceu calada at chegarem ao quarto. 
Assim que a porta de comunicao com o aposento de Marta se fechou, disse para Cris:
      - Viu aquilo?
      - Ele te deu um beijinho? quis saber a amiga.
      - No, s encostou o rosto dele no meu, bem de leve. Ser que  um costume daqui?
      - Sei l, replicou Cris, sorrindo e tirando o sapato, mas  muito romntico. Espero que ele ligue pra voc.
      - Voc acha que a gente poderia dar uma fugidinha pra encontrar com ele?
      - Por que pergunta?
      Selena cruzou o quarto, foi at a janela e olhou para fora.
      - Porque ns duas sabemos que ele  um rapaz maravilhoso e que  bom demais estar na companhia dele. Alm disso, ele tem uma atitude muito espiritual e edificante. 
Sua tia no percebe isso porque no  crente.
      - Acho que isso no significa que podemos desobedecer a ela, explicou Cris.
      Selena suspirou.
      - Tem de haver um jeito de justificar uma saidinha. Eu prefiro sair com Alex pra conhecer a cidade do que ficar fechada neste hotel. Voc no?
      - Eu tambm, claro, replicou Cris, tirando os grampos do cabelo e abanando a cabea para que ele casse solto sobre os ombros. Mas neste momento, o que quero 
mesmo  tirar um cochilo
      - Eu tambm, ajuntou Selena, concordando. Embora eu no queira confessar, a verdade  que acho que sou capaz de dormir no minuto em que bater na cama.
      A garota dirigiu-se para o leito, correu a mo sobre a colcha macia e em seguida deixou-se cair nela.
      - Mas ser que a gente no vai ter dificuldade pra dormir  noite? concluiu ela.
      - Eu no vou, disse Cris, j com os olhos fechados.
      A jovem estava deitada e tinha uma expresso de felicidade no rosto.
      - Se o Alex ligar, voc me acorda, viu? pediu Selena, virando-se de lado e ajustando o travesseiro.
      - De jeito nenhum, respondeu Cris. Se o telefone tocar, voc atende. Vai ser pra voc mesmo!
      - 'Ta bom, respondeu Selena.
      Foi a ltima palavra que ela disse antes de mergulhar no mundo dos sonhos.
Captulo Nove
      
      As sombras do entardecer comeavam a apareccer na parede do quarto, quando Selena acordou e se esforou para abrir os olhos.
      - Cris! chamou baixinho.
      Virou-se para olhar a amiga, mas esta continuava ressonando ainda na mesma posio em que se deitara. Selena ergueu-se silenciosamente e foi andando p ante 
pe at  janela. Gostava da vista que se tinha dali. Do outro lado da rua, via-se um prdio grande, em cuja fachada estava gravada a palavra Rathaus. A garota sabia 
que se tratava de um prdio da municipalidade. Elas haviam visto um igual na Alemanh, perto da escola Schwarzwald Volkschule. Alex explicara que todas as cidadezinhas 
da Europa tinham um desses.
      Aquele ali era pintado com uma cor vermelho-escura, lenmbrando o tom de tijolos. Numa das paredes laterais, havia um mural retratando, com figuras enormes, 
o povo da Idade Mdia. Em torno da parede, via-se uma brilhante moldura dourada. A rea ao redor do prdio era toda calada de pedras de formato regular. Ao longo 
da rua, viam-se construes altas, antigas, ocupadas por lojas. Deviam ter mais de cem anos. Contudo eram muito bem cuidadas. Todas tinham caixas de flores nas janelas 
do segundo andar. Eram gernios vermelhos em profuso, que tombavam pelas beiradas das jardineiras. Selena achou a imagem muito bonita, transmitindo uma sensao 
de calma.
      No alto, acima das lojas e da Rathaus, o cu j comeava a "desnrolar" seu tapete azul-escuro. Selena recordou-se do que V May lhe falara quando era pequena. 
Deus estava l no alto, preparando-se para estender o carpete escuro da noite, que tinha inmeros furinhos. Ela dissera que Deus resolvera no remendar os orifcios 
porque assim a luz do ceu se refletiria na terra, passando atravs deles.
      Estou na Sua, lembrou-se ela. Esta cidade deve ser linda  noite. Como seria bom se pudesse caminhar com o Alex por estas ruas antigas! Ah, isso sim, seria 
muito romntico!
      O telefone tocou. Selena deu um pulo. O barulho dele foi bastante estridente, parecendo mais um rudo eltrico do que o toque normal. Ela agarrou o fone.
      - Al! Alex?
      - Oh! Desculpe! Deve ter cado no quarto errado! disse uma voz masculina que ela reconheceu. Desculpe!
      - Espere a! disse a garota antes que ele desligasse. Pai!
      - Selena?
      - , sou eu! Oi, pai!
      - Oi, filha! Como e que est passando? indagou ele.
      - Estou tima! Esta tudo muito bom! Estou cansada, mas disso a gente j sabia. E a? Est tudo bem?
      - Est. Tudo muito bem! S estamos sentindo a sua falta. Ento liguei para saber como est indo.
      Selena deu ao pai um relatrio resumido da visita  escola e ao orfanato.
      - Ah, bom, disse ele. E quem e Alex?
      Selena deu um sorriso e fez uma pausa antes de responder. Seu pai nunca "perdia" nada mesmo. Conhecia muito bem cada um dos seis filhos. Soubera conquistar 
o respeito de todos, e eles no se importavam com as perguntas mais indiscretas que fazia, "intrometendo-se" na vida deles.
      Ela explicou ao pai que conhecera Alex no trem, e que depois tinham ficado sabendo que ele era amigo do Sr. Pratt. E relatou que o rapaz rodara com elas pela 
cidade.
      - Parece um rapaz muito legal, comentou o Sr. Jensen. Mas agora vou lhe dar uma ordem paterna, viu? Posso falar?
      - Pode.
      - Sempre que voc estiver com esse rapaz daqui para a frente,  bom estar com a Cris junto.
      - Por qu?
      -  s uma precauo; s isso.
      - Papai, se o senhor conhecesse o Alex iria gostar muito dele. Ele  crente, um timo crente.
      - Acredito, disse o pai. E espero que passe com ele momentos memorveis e maravilhosos. Mas sempre esteja na companhia de algum. Cris sempre tem de estar 
junto com vocs, o.k.?
      - O senhor no confia em mim?
      - Confio, sim. Plenamente.
      - Ento, qual e o problema? indagou Selena, sem entender o que se passava.
      - A distncia. Voc esta a trs mil quilmetros de distncia de ns, explicou ele. E passear com um rapaz numa cidade da Sua no  o mesmo que convidar o 
Ronny para jantar aqui em casa.
      - O Ronny e s meu amigo.
      - 'Ta bom, o Drake, ento.
      - Eu sa com o Drake uma vez s.
      - Seleeeena!
      Pela firmeza do tom de voz do pai, a garota compreendeu que no adiantava ficar discutindo com ele. Ele estava falando srio.
      - Se voc sair com o Alex, ou melhor, quando voc sair com ele, a Cris ou a Marta tem de ir junto. Essa  a nossa determinao para voc, concluiu ele.
      - Entendi! disse ela, procurando dar a voz um tom descontrado.
      No queria, de forma nenhuma, contrariar o pai nem dar a impresso de que estava desobedecendo as ordens dele. Ele sempre tinha razo no que dizia. Ela no 
podia ficar arranjando argumentos para rebater os dele.
      - D um abrao na me e no pessoal a pra mim, disse afinal.
      - Eu dou. E voc, divirta-se bastante a, hein?
      - 'T bom. Obrigada pelo telefonema, pai. Um abrao!
      - Outro, querida. Tchau!
      Ouviu o estalido na linha, indicando que ele desligara. Contudo continuou a experimentar a sensao gostosa da voz do pai em seu ouvido. Seus pais eram maravilhosos, 
e ela sabia disso.
      - Era o Alex? indagou Cris, sentando-se na cama e espreguiando, lutando contra a sonolncia que a dominava.
      - No, era meu pai. D pra entender uma coisa dessas? Eu estava aqui pensando em como seria maravilhoso se pudesse dar uma fugidinha pra me encontrar com o 
Alex, e meu pai liga e me faz prometer que s vou sair com ele se for na sua companhia ou na da Marta.
      - , meu pai tambm diria algo assim, comentou Cris.
      - E voc obedeceria?
      - Provavelmente, respondeu Cris, bocejando e espreguiando de novo. Teve uma vez que viajei com meu tio e minha tia para Palm Springs e resolvi dar uma fugida.
      - Voc? indagou Selena espantada.
      - , eu e umas amigas. Como fui burra! Hoje, quando me lembro do caso, no entendo como deixei que elas me convencessem a fazer aquilo.
      - Vocs foram se encontrar com algum rapaz?
      - No, respondeu Cris, levantando-se e caminhando at a janela para ver a vista dali. Demos uma sada para ir a uma loja. Acabou dando uma confuso tremenda. 
Fomos parar numa delegacia. E durante um bom tempo todo mundo ficou com raiva de mim. , no vale a pena arriscar, no.
      Selena creu quando Cris disse que no era muito bom dar uma fugidinha s escondidas. A garota entendeu tambm que seu pai insistiu em que sempre sasse acompanhada 
porque a amava. Mesmo assim, no podia negar que, se o Alex telefonasse e quisesse encontrar-se com ela a noite, ficaria muito tentada a ir.
      Entretanto o rapaz no ligou, Marta tambm se levantou pouco depois que a Cris acordou e, num tom brusco, comunicou s duas que sua dor de cabea melhorara. 
Queria que as trs fossem jantar no restaurante do hotel, embora j passasse de oito da noite.
      Afinal, elas descobriram que estavam com mais fome do que pensavam. E o prato que pediram - batatas com salsicha - estava muito gostoso. Com o nimo renovado, 
resolveram dar um passeio pelos arredores e olhar um pouco as vitrinas. O garom do hotel dissera que aquele setor de Basilia era o alt stadt, ou "cidade velha".
      Uma brisa fresca soprou sobre o rio Reno e foi acompanhando as trs, que iam caminhando e conversando. Nesse momento, estavam descontradas, sem nenhuma tenso. 
Era a primeira vez que isso acontecia desde que haviam iniciado a viagem.
      Selena pensou que, se Marta continuasse com aquele bom humor, talvez permitisse que ela passasse alguns momentos em companhia de Alex. Quem sabe poderiam ir 
fazer uma caminhada, como ele sugerira. Ou talvez at pudessem fazer um piquenique, ou dar uma volta de bicicleta. Desde que haviam chegado  Europa, o rapaz estivera 
muito "presente" com elas. Agora, seria horrvel se tivessem de passear pela cidade sem a companhia dele.
      - Cris, voc gostaria de ir a escola de novo amanh? indagou Marta quando pararam junto  vitrina de uma loja para olh-la. H algum ponto que voc ainda gostaria 
de conversar com o Sr. Pratt?
      - No, replicou a jovem. Deu pra ter uma boa idia de como  tudo l. S tenho de decidir, antes de ir embora, se vou estudar aqui ou no.
      - , precisa mesmo, concordou a tia.
      - O que eu gostaria era de ver mais alguns pontos da cidade, comentou Cris.
      Em seguida, suavizando um pouco o tom de voz, concluiu:
      - Seria timo se pudessemos fazer uma caminhada com o Alex.
      Para surpresa de Selena, Marta no retrucou imediatamente. J se achavam quase de volta ao hotel.
      - Marta, interveio Selena, meu pai me ligou agora de tardinha, e eu lhe falei sobre o Alex. No sei se isso a ajudar a decidir sobre essa questo, mas ele 
disse que esperava que eu sasse outras vezes com Alex, que me divertisse e levasse boas recordaes daqui.
      - Seu pai disse isso? indagou Marta. Voc no est inventando, no?
      - No; ele disse, sim. Falou tambm que sempre que eu sasse na companhia dele, era para Cris ou voc ir junto.
      - Foi isso mesmo que ele falou?
      - Foi, respondeu a garota com firmeza.
      Selena estranhou a atitude da tia de Cris. No estava acostumada a que duvidassem de sua palavra.
      - Olha, ento quero lhe dar os parabens por ter me contado. A melhor atitude a se tomar  sempre falar a verdade.
      - , concordou a garota, falando mais para si mesma do que para a mulher, creio que sim.
      Nesse momento, Marta parou, virou-se para as garotas e olhou-as de frente. Em seu rosto, se estampara uma expresso de simpatia, a mais agradvel que ela j 
demonstrara at ali. Obviamente estava se sentindo bem melhor.
      - ... tenho de confessar que admiro as duas pela maneira como seguem direitinho as determinaes dos pais. So bem diferentes de como eu era quando tinha 
a idade de vocs.
      - Ouvi dizer que era bem "namoradeira", comentou Selena, aproveitando aquela oportunidade para tentar fazer com que Marta se abrisse um pouco.
      Cris lhe deu um belisco.
      - Quero dizer, corrigiu-se a garota, percebendo o fora que dera, se voc era diferente de ns, devia ser bem irrequieta. Na verdade, pensando bem, acho que 
eu e a Cris  que devemos ser meio sem graa.
      - Fale s por voc! interveio Cris em tom brincalho.
      Marta recomeou a caminhar, andando ao lado das duas garotas. Depois de uns instantes de silncio, indagou:
      - Cris, o que foi que sua me lhe falou sobre mim?
      - Nada.
      - No, pode me dizer. O que foi que a Margaret contou a meu respeito?
      - Ela s falou que as duas eram muito diferentes; uma, o oposto da outra. Sei que minha me era superobediente. E no tinha uma vida muito agitada, no; at 
meio parada.
      - Minha vida no era nada parada, comentou Marta. Isso posso dizer com certeza.
      - Como era? indagou Selena, interferindo na conversa.
      Compreendeu que era o momento certo para comear a "arrancar" a couraa de proteo que Marta adotara.
      - Sua pergunta  meio ousada, garota! replicou a tia de Cris, parecendo surpresa, mas no ofendida com a indagao.
      - Voc teve muitos namorados? insistiu Selena. Eu a imagino namorando o capito do time de futebol, ou ento o principal jogador de basquete da escola. Deviam 
formar um casal e tanto - um cara bem alto e voc, uma garota baixinha e feminina.
      Marta riu.
      - No; na verdade, foi um jogador do time de hquei. E no era muito alto, no, mas era forte e musculoso. Ah, e bastante audacioso. Eu achava que, se eu pedisse, 
ele seria capaz de fazer a Terra parar de girar. No havia dvida de que o Nelson era um cara que venceu na vida. O que ele queria, conseguia.
      - O nome dele era Nelson? indagou Selena.
      De repente, Marta se sobressaltou, como se houvesse percebido que falara demais.
      - Ah, no devia estar contando esses fatos para vocs. Esqueam-se de que falei isso, est bem? So acontecimentos ocorridos muitos anos atrs. Deveramos 
estar conversando agora era sobre o que vamos fazer amanh. Para comear, vamos tomar o caf s 8:00h. A gente se encontra no refeitrio. E, por favor, no se atrasem. 
O resto a gente combina depois. Mas acho que seria bom fazermos umas compras, no acham?
      Selena no estava muito a fim de pensar em fazer compras. Finalmente conseguira abrir um "rombo" na "couraa" protetora de Marta; e vira que havia um nome 
gravado ali: Nelson.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Dez
      
      - Nelson! repetiu Selena para Cris, assim que as duas chegaram ao quarto. Voc conheceu algum homem com esse nome?
      - No.
      - Que ser que aconteceu com ele? continuou a garota. Ela quase contou, voc viu?
      Cris acenou que sim.
      - Ela estava de bom humor, comentou. Foi timo!
      - Tomara que ela fique assim por um bom tempo.
      No dia seguinte, quando foram se encontrar com Marta para tomar o caf, a tia de Cris ainda continuava de bom humor. Selena poderia at ter tentado abrir outra 
"brecha" na "couraa" dela. S que, dessa vez, era ela que se achava mal-humorada.
      A garota no havia dormido bem. O cochilo que tirara na tarde anterior acabara por atrapalhar-lhe o sono. No conseguira dormir imediatamente, como Cris dormira. 
Ficara um bom tempo deitada ali, pensando e orando. Passara vrias horas meio dormindo, meio acordada. E o fato de Alex no ter ligado s servira para piorar sua 
disposio.
      Por que ser que os rapazes fazem isso? pensou, sentindo forte irritao. Prometem telefonar. Tratam a gente com tanta gentileza e at encostam a mo no rosto 
da gente, dando a impresso de que vo cumprir o que prometeram. Depois no se tem mais notcia deles. Eu estava at pensando em dar uma fugidinha, e ele nem telefonou!
       Contudo, quanto mais pensava na idia de dar uma fugida, pior se sentia. Se estivesse em casa, nem sonharia em fazer algo assim. Ento, por que achava que 
no seria errado faz-lo ali? A nica explicao que lhe ocorreu foi que, em casa, tinha muito respeito pelos pais e pela autoridade deles. Entretanto no sentia 
o mesmo com relao a Marta.
      Assim que terminaram de tomar caf, Marta se ps a falar das compras.
      - Podemos comear indo quelas lojinhas que vimos ontem  noite, disse ela. Quero voltar naquela que fica  duas quadras daqui e comprar um leno de cabea 
que vi l. E vocs, j pensaram em algo que querem comprar?
      - No, respondeu Cris.
      A jovem acordara com boa disposio. Quando Selena voltara do banho, vira a amiga sentada  mesinha, lendo a Biblia, fazendo anotaes em seu dirio e cantarolando 
baixinho. A garota atirara um travesseiro nela, mas no conseguira fazer com que parasse com sua musiquinha alegre.
      Assim que entraram na loja, Selena notou que Marta se transformou em outra pessoa. Cumprimentou as balconistas, que alis se mostravam bem amistosas, e logo 
se ps a fazer comentrios elogiosos sobre os artigos expostos. As vendedoras se aproximaram mais dela e responderam em tom corts, mas com linguagem formal. Marta 
se achava no controle da situao.
      - Por que ser que o Alex no ligou? indagou Selena para Cris. O que voc acha?
      As duas haviam ficado perto da entrada da loja, junto a uma estante com cartes de felicitaes.
      - Provavelmente por alguma razo justa.
      - , eu sei a razo. Ele  rapaz e todos eles so iguais. Chegam cheios de interesse e gentileza, mas depois vem algum que atrai mais a ateno deles e, 
de repente, a gente no significa mais nada pra eles.
      Cris deu uma risadinha suave.
      - Ah, Cris, no ri de mim quando estou sofrendo, falou Selena, cruzando os braos e olhando a amiga com uma exprresso exageradamente emburrada.
      -  muito engraado! replicou a outra. No estou rindo do que voc esta sentindo, no. Mas o que voc falou  exatamente o que eu costumava dizer sobre o Ted 
anos atrs.
      - No me diga! Ento at o Ted, aquele sonho de pessoa, era um cara insensvel tambm? No existe mesmo esperana neste mundo!
      - Ah, eu poderia lhe contar um bocado de casos! Daria para escrever um livro, comentou Cris, inclinando-se para ela. O Ted de vez em quando, ainda tem umas 
recadas, como nesta viagem, por exemplo. Essa deciso  muito importante pra mim, e acho que afeta a ele tambm. No entanto, pelo jeito como ele age, d a impresso 
de que pra ele no importa. O que eu decidir est bom. Fico com tanta raiva quando me lembro disso!
      - Ah, mas a eu j acho que ele esta s querendo deix-la livre pra decidir por si mesma.
      - E voc ainda o defende? retrucou Cris, cruzando os braos tambm.
      - Algum tem de defend-lo, coitado! exclamou Selena.
      Nesse momento, a garota se deu conta de que, se ela estivesse com cara de boba como a Cris estava, as duas ali, com ar de emburradas, deviam estar muito engraadas. 
E comeou a rir.
      - Que foi? indagou Cris.
      - Ah, esses rapazes! fez Selena com um brilho no olhar. Deixe eles pra l!
      - Isso mesmo! concordou a amiga. Deixe eles pra l! Puxa vida, estamos aqui, na Sua. Precisamos comear a nos divertir e esquecer do Ted e do Alex.
      - Estou com voc, Cris! Temos um dia inteiro  nossa frente, sem nenhum rapaz no programa. O que voc gostaria de fazer?
      - Obviamente a tia Marta vai querer fazer mais compras, mas ela sempre quer fazer compras, disse a jovem, dando uma espiada para o lado da tia. Se voc quiser 
comprar algo,  s falar, viu? Ela compra pra voc. Acho que o hobby predileto dela  ir comprar presentes para os outros.
      - Ah, o "hobbit" dela, brincou Selena.
      - O qu?
      - O "hobbit". Foi assim que o Alex pronunciou hobby.
      - Alex? indagou Cris, confrontando-a. Achei que tnhamos combinado de esquecer esses caras em quem no d pra confiar. Hoje s queremos saber de ns aqui.
      - Tem razo, tem razo, concordou Selena, erguendo um brao e imitando a esttua da Liberdade. Vamos partir para a liberdade e independncia, rompendo os grilhes 
das nossas cadeias emocionais! concluiu num tom de discurso.
      Assim que disse as ltimas palavras, moveu o brao e inadvertidamente bateu a mo na estante cheia de cartes, que foi tombando para um lado.
      - Cuidado! gritou Cris para uma senhora que ia saindo da loja.
      A estante ia bater direto na cabea dela. Com um reflexo rpido, Selena conseguiu agarr-la e pux-la para si. Assim no atingiu a freguesa, mas, com o movimento 
brusco da garota, os cartes caram sobre a mulher, como uma chuva de meteoros. A estante tombou na direo oposta e caiu em cima dos cartes, amassando vrios deles. 
E foi deslizando pelo cho paralelamente  parede. Bateu num fio eltrico e puxou-o, arrancando-o da tomada. Com isso, algumas lmpadas se apagaram, e ventiladores 
se desligaram.
      Houve um silncio total na loja. Todos se viraram e se puseram a olhar para as duas. Uma vendedora veio caminhando rapidamente e ligou o fio de eletricidade. 
As luzes se acenderam e os ventiladores voltaram a girar.
      - Cris, disse Selena em voz baixa, como e que se diz "Desculpe-me!" em alemo?
      - Sinto muito! replicou a outra de chofre. Pardon. Merci. Por favor.
      - Nada disso  alemo, cochichou Selena, sorrindo com os dentes cerrados.
      -  s do que consigo me lembrar, respondeu Cris.
      Selena estava levantando a estante, e a amiga foi ajud-la. Em seguida, elas cataram os pacotes de cartes.
      - A senhora se machucou? perguntou a garota para a freguesa atingida pelos cartes e que ficara parada ainda meio assustada.
      A mulher resmungou algo em francs e depois em alemo. Vendo que Selena no entendera nada, ergueu a mo, dando um tapa no ar, e saiu. A essa altura, Marta 
vinha correndo para onde elas se encontravam.
      - O que aconteceu? indagou a tia de Cris.
      - Foi um pequeno acidente, explicou a jovem, recolocando calmamente os cartes no lugar. Oh, que bonitinho este aqui, Selena, com essas flores silvestres!
      - Vamos comprar um deles? sugeriu a garota, acabando de por os objetos de volta no lugar.
      - No dava para vocs verem que eles eram bonitinhos sem terem de derrubar a estante toda? indagou Marta irritada. Eles ficaram amassados. Vamos ter de comprar 
todos eles.
      - Estes aqui no esto amassados, no, retrucou Selena. Esto acondicionados em invlucros de plstico muito firmes, Agora, os cartes soltos esto.
      Ela se virou e olhou para o cho. Havia pelo menos uns vinte cartes estragados. Marta deu dois passos, abaixou-se e comeou a recolh-los. Pegou inclusive 
alguns que no se achavam amassados, mas que estavam cados junto com esses.
      - Vocs duas podem ir me esperar l fora. E vejam se no derrubam mais nada aqui, ouviram? disse ela, saindo rapidamente em direo ao caixa para pagar os 
cartes.
      As duas garotas, silenciosamente, foram saindo da pequena loja e pararam perto de um poste, para ficar esperando a tia de Cris. No alto dele, havia uma caixa 
de flores com malmequeres amarelo-vivos, e uma florzinha azul mida.
      - Selena, disse Cris rindo, v se no inventa mais nenhuma imitao de mulher "emancipada", seno aquela cesta de flor vai acabar caindo na sua cabea.
      - Ser que sua tia ficou com tanta raiva que no vai querer mais nem me ver na frente dela?
      - Depois ela se acalma. No se preocupe. Afinal, foi um acidente. E alm do mais, ficamos com um estoque de cartes em alemo que vai dar para o ano todo. 
Isso no teria acontecido se a estante no tivesse ido atrs de voc!
      As duas caram na risada.
      - Quero aqueles cartes, comentou Selena. Acho que a gente deve mand-los para os amigos e deixar que eles descubram o que est escrito neles.
      - Vamos sim, concordou Cris. Aposto que diz l: "Espero que se recupere prontamente da cirurgia de clculos renais". Ou ento: "Parabns pela aposentadoria!"
      -  bem provvel, disse Selena.
      A garota colocou a mo na testa, fazendo uma "aba" para os olhos, e espiou para o outro lado da rua. Avistara ali uma casinha de madeira toda pintada de branco 
com janelinhas verdes. Parecia de brinquedo. Tinha at jardineiras cheias de flores amarelas, alaranjadas e azuis.
      - O que ser aquilo? indagou. Eu no a vi ali ontem  noite quando passamos por aqui.
      - Parece uma cabine de informaes tursticas, respondeu Cris. L deve haver mapas de graa. Vamos ver se arranjamos um?
      - Vamos, respondeu Selena, saindo  frente da amiga e atravessando a rua calada de pedras.
      Ali encontraram um senhor de meia-idade, que fumava um cachimbo e usava roupas tpicas da regio e um chapu de feltro verde.
      - Guten tag! disse ele, cumprimentando-as.
      - Fala ingls? indagou Cris.
      - Claro! respondeu o homem.
      - Aqui o senhor d informaes? quis saber a jovem.
      O homem no respondeu, mas levantou os olhos e fitou uma placa enorme acima do guich, que indicava: "Informaes".
      - Ns queramos um mapa, disse Selena, adiantando-se e ficando junto da amiga. O senhor tem a um mapa que mostre os pontos tursticos de Basilia?
      - Tenho, replicou o homem e entregou-lhe um mapa impresso em cores vistosas, com orientaes em quatro lnguas. Onde vocs querem ir?
      - Eu queria fazer um piquenique numa montanha dos Alpes, replicou Selena prontamente, como naquele filme A Novia Rebelde.
      - Mas aquela era na ustria, explicou Cris.
      - Eu sei, disse a garota. Mas os Alpes no ficam na Sua e na ustria? Um piquenique seria to legal! A gente podia ir de nibus, no podia? De txi fica 
muito caro.
      - , vocs podem ir de nibus ou de trem. Qual a montanha que querem ver?
      Selena deu de ombros.
      - Sei l. Qualquer uma. Gosto de qualquer montanha. O pico Matterhom no fica na Sua?
      - , respondeu o guia, abrindo um mapa do pas. Vocs poderiam viajar at Zermatt.
      - No, interveio Selena. No queremos uma viagem longa, no.  pra ir e voltar no mesmo dia. Estava pensando em fazer o piquenique hoje mesmo.
      O homem fechou o mapa.
      - Ah, ento, gostaria de dar-lhes uma sugesto.
      Ele abriu um mapa menor e marcou com um lpis vermelho o nome do nibus que elas teriam de tomar. Em seguida, apontou para um prdio amarelo que ficava do 
outro lado da rua. Era ali que deveram pegar o coletivo. As duas se viraram para ver o ponto que ele estava indicando. No mesmo instante, avistaram Marta. A tia 
de Cris estava andando de um lado para outro em frente da loja onde haviam estado. Em seu rosto, estampava-se uma expresso de desespero.
      - Essa  boa! exclamou Cris. Obrigada! gritou para o guia.
      Pegando o mapa, as duas atravessaram a rua correndo.
      - Danke! gritou Selena, virando-se ligeiramente no meio da correria.
      Marta devia estar simplesmente furiosa com elas por no haverem avisado aonde iam. Elas no tinham pensado em fazer nada errado. Foram s dar uma chegadinha 
do outro lado da rua, enquanto a tia de Cris se encontrava na loja.
      E agora ela estava ali, parecendo fortemente irada, com uma das mos na cintura e batendo a ponta do p, com impacincia. Na outra mo, tinha uma sacola de 
compras. Eram os cartes de saudaes amassados.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Onze
      
      - No, disse Marta, no estou aborrecida, no.
      E com passos firmes, foi descendo a rua, conduzindo as duas garotas em direo  loja de lenos de cabea.
      - Vocs ja explicaram tudo, e, como eu j disse, s quero que, da prxima vez me digam aonde vo. Vocs podem imaginar o que senti quando sa da loja, depois 
de ter pago as despesas daquele acidente que provocaram, e no as vi em nenhuma parte? O que vocs pensariam? Fiquei aterrorizada! Afinal, sou responsvel pelas 
duas, e se tivesse acontecido algo, ficaria arrasada pelo resto da vida.
      - Desculpe, tia, falou Cris, adiantando-se e pondo-se a caminhar ao lado dela.
      - Est bem. Eu j aceitei seu pedido de desculpas na primeira vez que pediu. Agora,  s ficarmos sempre juntas que tudo vai acabar bem.
      Selena achou que teria sido melhor se Marta houvesse extravasado a raiva e berrado com elas. Era melhor do que ter de aguent-la falando, falando e repetindo 
sempre as mesmas orientaes.
      Afinal, chegaram  loja de lenos, e as duas jovens assumiram seu papel de sobrinhas muito interessadas e cuidadosas, ajudando a tia a escolher os artigos 
que queria.
      - Bom, acho que nossa prxima parada deve ser numa loja para comprar umas roupas para voc, no  Selena? Voc disse que queria um vestido ou uma saia. Quero 
comprar algo para voc. Nesta caminhada at aqui, viu alguma loja que lhe pareceu interessante? Ou vamos em frente?
      - Precisa no... principiou a garota.
      Naquele instante, porm, Cris ps a mo nas costas dela e lhe deu um leve aperto. Era um sinal para no contrariar Tia Marta.
      - , fez ela, na verdade, passamos por uma loja ali atrs onde vi umas saias longas, tipo "indiana".
      - Saia "indiana"? indagou Marta com uma ponta de crtica. Daquelas do tipo hippie?
      Selena ficou um instante em silncio, mas depois fez que aim.
      - , disse. Podemos dar uma espiada l.
      - Se  isso que voc quer...
      Marta virou-se e saiu caminhando, dirigindo-se para a loja. Assim que entraram, sentiram um forte odor de incenso. Sobre a porta, havia uma srie de sininhos 
que tilintaram. A msica ambiente era estranha e extica. Nas paredes, viam-se psteres com smbolos satnicos. Serpentes feitas de material plstico pendiam do 
teto. Imediatamente Selena virou-se e saiu  rua.
      - No gosto desse tipo de loja, falou.
      - timo, comentou Marta, espero que no mesmo.
      - Gosto muito de roupas simples, como as que esto nas vitrinas dela. Mas  s. As peas de vesturio a so muito legais, mas os outros artigos que eles vendem, 
no.
      - Ento vamos continuar rua abaixo, props Cris. Tem muita loja por aqui.
      O Sol esquentou e as ruas agora estavam bem mais movimentadas. As trs diminuram um pouco o passo. Selena teve a sensao de que estava em sua terra e que 
se achava num centro comercial luxuoso, daqueles propositalmente construdos para imitar um velho mercado europeu. S que no estava l. Encontrava-se no verdadeiro 
comrcio europeu. Volta e meia passavam por pessoas falando uma lngua diferente. Um forte aroma de caf pairava no ar, proveniente das pequenas confeitarias ali 
existentes. Todas as lojas tinham vitrinas com artigos expostos, procurando atrair os clientes para dentro delas.
      Afinal, pararam perto de uma que vendia apenas ch e entraram. Logo  frente, via-se um balco de mogno. A parede dos fundos era coberta de alto a baixo por 
uma estante com dezenas de divisrias, nas quais se encontravam as caixas de folhas de ch. O aroma delas enchia o ambiente. Cada vez que Selena sentia o cheiro 
de um deles, fosse um cha de frutas, ou o ch preto, ou o ch do Ceilao, tinha a sensao de que acabara de beber algo delicioso.
      - Ah, tenho de comprar um desses, disse para Marta e Cris. Vocs se importam de esperar um pouquinho? Vou entrar nessa fila e comprar um ch desses pra mim.
      - Ento vou lhe dar dinheiro, falou Marta.
      - Obrigada. No precisa, no. Vou comprar pouca quantidade. Meu dinheiro d.
      Ela entrou na fila e,  medida que ia caminhando, ia lendo o nome dos diversos tipos de ch de cada caixa. Havia duas balconistas, muito bem arrumadas, vestidas 
com um guarda-p branco. Quando um cliente pedia um determinado ch, uma delas pegava a caixa, abria-a e media a quantidade pedida - cem gramas, meio quilo, um quilo 
- com uma concha de metal. Selena decidiu que iria levar meio quilo. Assim que chegou sua vez, ela teve de explicar por meio de gestos e acenos, tentando dialogar 
com a vendedora, que tinha um sotaque muito pesado. Afinal, conseguiu exatamente o que queria: jasmim com canela e cravo. O cheiro era maravilhoso. Sentiu-se bastante 
chique e sofisticada. E em seguida, as trs saram da loja. Assim que a porta se fechou, os aromas exticos ficaram para trs.
      - Que legal! exclamou a garota. Obrigada por terem esperado, gente!
      - De nada, replicou Marta, pegando um batom e aplicando-o aos lbios. Estou com vontade de beber algo, e talvez at de comer tambm. E vocs, garotas?
      - Ser que a gente encontra gua em algum lugar deste pas? quis saber Selena. J que existe tanta neve nos Alpes, era para haver um bebedouro em cada esquina 
por aqui.
      - Vamos entrar aqui, disse Marta, dirigindo-se para uma confeitaria. Selena, nesta loja deve haver gua mineral. O que voc quer, Cris?
      - Aquilo ali, respondeu a jovem, apontando para um pastel folhado, sobre o qual havia um enfeite de chocolate. Assim que Selena olhou para o doce, tambm o 
quis.
      - Um pra mim tambm, falou.
      Marta adiantou-se e pediu dois pastis para as garotas. Selena mais uma vez observou que ela elevou o tom de voz. Teve a impresso de que ela achava que as 
vendedoras s a entenderiam se falasse alto e expressasse cada palavra com muita clareza.
      Elas pegaram o saquinho com a deliciosa guloseima e foram para fora. Num dos cantos, viram um homem acompanhado do filho, que estavam se levantando do lugar, 
um banco junto  janela. Ele disse algo em alemo e fez um gesto para que elas se sentassem ali. As trs fizeram um aceno de cabea agradecendo e se acomodaram no 
banco, que era pintado de um vermelho vivo.
      - Hummm! Que maravilha! exclamou Selena, dando a primeira dentada no pastel e erguendo o rosto para cima, sentindo o calor do Sol do meio-dia. Que ser que 
 este recheio? A D. Amlia iria gostar de saber a receita pra fazer este doce no Mother Bear.
      - Provavelmente  marzip,* replicou Marta. Quase todo esses tipos de folhados tem marzip.
      ___________________
      *Marzip - um creme feito com pasta de amndoas e acar. (N. da T.)
      
      - De qual voc pegou? indagou Selena para a tia de Cris.
      - Nenhum, respondeu ela. S peguei uma Coca diet.
      - Como  que voc pode entrar numa confeitaria dessas, em plena Sua, e no comer nada? indagou Selena.
      Dessa vez, Cris no tentou reprimi-la.
      - Imagine s o tanto de acar e manteiga que h nesses doces! exclamou Marta.
      - Eu no imagino, respondeu logo Cris. Estou s "curtindo"!
      - Pois vai tudo formar "pneuzinho" na barriga, alertou a tia.
      - Olhe aqui, d uma mordida no meu, ofereceu Selena.
      - No, obrigada!
      - Ah, que e isso? Come s um pedacinho! insistiu a garota.  delicioso! Quando  que voc vai ter outra chance de comer um pastel folhado desses? E ainda mais 
um pastel da Sua...
      Usando a ponta do saquinho como se fosse um guardanapo, Selena partiu a ponta do pastel e estendeu-o para a tia de Cris.
      - Por favor, disse, experimente s um pedao.
      - No sei por que faz tanta questo disso, retrucou Marta meio impaciente.
      Cris inclinou-se para a tia e falou:
      - Ah, Tia Marta, coma! Depois ns vamos andar e a senhora queima essas calorias todas rapidinho. Goze a vida um pouquinho!
      Abanando a cabea para demonstrar que cedia contrariada, Marta estendeu a mo e pegou a pontinha do doce que Selena lhe oferecia. As duas garotas ficaram aguardando 
para ver a reao dela.
      Relutantemente, a tia de Cris levou a guloseima  boca e deu uma mordida.
      - Hmmm! Que delicia! exclamou, saboreando o pastel.
      Cris e Selena deram risadinhas de satisfao.
      - Ah, eu no disse? Agora compre um folhado pra senhora, tia.
      - Ser que devo? indagou Marta, com a expresso de uma garotinha.
      Selena ficou admirada com a mudana que se operara nela. Em vez da "ditadora" de sempre, ela agora parecia uma criana indecisa.
      -  claro que sim! respondeu Cris. Se a senhora no for, eu e a Selena iremos l comprar um. E a senhora ja sabe o que eu e ela aprontamos quando entramos 
numa loja dessas.
      - Sei! No precisa falar mais nada, replicou Marta, erguendo uma das mos. J vou.
      Ela se levantou prontamente e, dando um sorriso meio tmido, caminhou em direo  confeitaria.
      - Sabe o que mais? principiou Selena, dando outra mordida no seu pastel. Sua tia melhora de humor depois que come um doce.
      Cris deu risada.
      - Ela  muito complicada, no ? disse, levando lentamente  boca mais um pedao do doce.
      - Ela esta e supercansada, comentou Selena.
      - Mas ela disse que dormiu bem a noite passada.
      - No, replicou a garota, eu quero dizer que ela esta cansada de guardar algo bem no fundo do corao durante tanto tempo. E esse segredo parece que fica s 
querendo "sair" de dentro dela, e ela tem de se vigiar constantemente pra no se descuidar e deixar o sofrimento vir  tona.
      - Em que livro de psicologia voc viu isso? indagou Cris, virando-se para a amiga e analisando-a atentamente.
      - Em nenhum. Isso  apenas a minha opinio. Voc no precisa concordar comigo.
      - A  que est o problema, retrucou Cris. Tudo que voc disse faz muito sentido. Acho que vou concordar com voc.
      - Pois . Ento s temos de esperar o momento adequado e saber fazer a pergunta certa, que ela vai soltar tudo, explicou a garota.
      - , contraps Cris, no fique contando muito com isso, no, viu?
      O sininho da porta da confeitaria tiniu, e Marta surgiu trazendo um saquinho branco com seu prprio pastel folhado. No rosto, estampava um sorriso diferente, 
que lembrava uma criana que fizera uma travessura. Chegou junto das duas e sentou-se no banco.
      - Comprei umas trufas para ns tambm, disse. Vocs viram os bombons deles? Da mais alta qualidade! So absolutamente maravilhosos! Aqui, um para voc, um 
para voc, e outro para mim. Gente, bon appetit!
      Selena dirigiu  amiga um olhar em que parecia dizer: "No falei? Estamos destruindo aquela couraa de proteo dela!"
      Cris deu uma mordida na sua trufa e se ps a mastig-la.
      - No, no, no! interveio Marta. Trufa a gente no mastiga, no. Deixe-a parada na lngua, dissolvendo sozinha. Saboreie devagar, curtindo o doce.
      Selena deu uma dentada na sua e deixou-a dissolver na boca. Era deliciosa, muito saborosa mesmo!
      - , voc tem razo, comentou ela. A gente tem de prolongar esse momento o mximo possvel.
      - Comer chocolate tem de ser uma experincia agradvel, comentou a tia de Cris, fechando os olhos e respirando fundo. Faz muito tempo que no como um chocolate 
to delicioso como este!
      - O Nelson lhe dava bombons? indagou Selena.
      A mulher abriu os olhos devagar, olhando para o seu saquinho e em seguida para a garota. Havia muitas pessoas caminhando pela rua, entrando nas lojas e saindo. 
Naquele instante, Selena teve a sensao de que tudo girava em cmara lenta. E Marta respondeu:
      - Nelson me dava o que eu quisesse, inclusive bombons. 
      - E o que aconteceu com ele, afinal? arriscou Cris.
      Selena admirou a coragem da amiga. , mas agora no era preciso ter muita coragem para fazer esse tipo de pergunta, j que ela, Selena, havia comeado a "arrancar" 
a couraa de proteo da tia.
      Por um momento, a garota teve a impresso de que a resposta veio aos lbios de Marta, e que ela ia revelar o segredo. Entretanto, logo em seguida, ela fechou 
a boca e engoliu seu ltimo pedacinho de trufa. Junto com ele foi tambm a esperada resposta.
      - Talvez algum dia eu lhe conte, disse Marta afinal em tom grave.
      Ela enfiou a mo no saquinho e partiu um pedao do pastel com as casquinhas esmigalhadas. Mastigou-o lentamente, com ar distrado. Selena no saberia dizer 
se a tia de Cris estava curtindo o doce ou se, de repente, perdera o gosto por ele e comia-o mecanicamente. Para a garota, aquilo representava bem o que era a vida 
dela. Agia sempre certinho, com gestos mecnicos, sem apreciar nada.
      E as trs ficaram ali sentadas, debaixo do Sol quente, cada uma comendo seu pastel folhado, e cada uma imersa nos prprios pensamentos.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Doze
      
      Selena mastigou o folhado bem devagar, sentindo o sol bater-lhe no rosto e ouvindo o vozerio da rua. No alto, um passaro soltou um trinado, chamando a companheira. 
A brisa do vero passou por elas, soprando em suas pernas. Era bem leve, quase imperceptvel.
      Havia muitos anos j que Selena sabia que o Esprito Santo era comparado ao vento. Sabia que ele estava sempre presente com o cristo, mesmo que fosse apenas 
como uma brisa leve. O vento soprava onde ele quisesse. E era fcil perceber por onde ele estava passando, pois movia os objetos e as pessoas. Contudo ningum o 
via.
      Naquele momento, sentada naquele banco de rua na Basilia, a garota sentiu algo agitar-se em seu interior. Seria um desejo? uma paixo? o acar circulando 
em seu organismo?
      No; era uma mistura de algo emocional e espiritual. A agitao interior estava bastante forte e vibrante. Selena compreendeu que queria gozar ao mximo a 
vida que Deus lhe dera. Desejava ter uma conscincia mais ntida do mover da "brisa" do Esprito em seu ser. Queria que a presena e os efeitos dele fossem mais 
evidentes nela.
      Naquele instante, entendeu que no tinha vontade de terminar como Marta, regida por metas e horrios, sem apreciar as belezas que havia ao seu redor. Enxergou 
ainda que ultimamente tinha andado "organizando" sua vida como fazia a tia de Cris. Estabelecera regulamentos, padres de conduta e metas para seu curso na faculdade. 
Passara as frias todas trabalhando, ajudando no abrigo para desabrigados e indo a igreja quase todos os dias. Agora, pela primeira vez, percebia que perdera muito 
da espontaneidade e da alegria de viver.
      A lembrou-se tambm de outro fato. No dia em que seu pai lhe dera a aliana de ouro, ele lhe dissera que curtisse a vida. Agora compreendia o que ele quisera 
dizer. Nesse momento, dava-se conta de que estava com suas metas bem estabelecidas, mas no estava curtindo a vida. E ela sabia que poderia faz-lo, desde que fosse 
com divertimentos sadios. Essa viagem de ltima hora despertara nela essa vontade, e estava gostando muito disso. Aquela vitalidade interior que experimentava era 
maravilhosa, libertadora. E no havia nada de errado com ela. Finalmente, estava sendo fiel aos prprios impulsos, para ser como Deus a criara.
      - Cris, como era mesmo aquele versculo?
      A jovem passou a lngua pelos lbios e amassou o saquinho vazio, fazendo uma bolinha.
      - Que versiculo? 1 Pedro 4.8? Aquele que o Alex citou ontem?
      - ; o que ele falava sobre amor?
      - Ah, eu o li hoje de manh e at o sublinhei na minha Biblia. Diz assim: "Acima de tudo, porm, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre 
multido de pecados."
      -  isso ai, concordou Selena. "Tende amor intenso uns para com os outros." Como foi mesmo que o Alex disse? Ah, ele disse "muito forte".
      A garota parou, pensou uns instantes e depois continuou:
      - Voc  assim, Cris. Voc ama os outros com um amor forte. Gosto dessa sua qualidade e quero ser assim tambm.
      A jovem ficou com o rosto vermelho.
      - Sabe o que no entendo? interveio Marta. Como  que vocs se tornaram grandes amigas, sendo que h uma diferena de idade entre as duas? Quando eu era da 
sua idade, Cris, nunca pensaria em ter amizade com uma garota trs anos mais nova que eu. Poderia at ter um leve relacionamento com ela, mas nunca a consideraria 
uma amiga de verdade.
      - Na realidade, retrucou Cris, a diferena entre ns  de dois anos. Mas parece que somos quase da mesma idade.
      -  porque sou muito madura pra minha idade, disse Selena em tom de brincadeira e engrossando a voz.
      - , j percebi isso, concordou Marta.
      - Eu estava brincando, explicou Selena.
      - Mas eu no. Vocs duas so mais conscientes de si mes mas e da vida do que eu era quando jovem. , mas tenho uma ressalva. No concordo muito com esse fervor 
religioso de vocs. Sou obrigada a reconhecer, porm, que, de algum modo, isso tem suas vantagens.
      - Mas isso no  pra termos vantagens, tia, replicou Cris,  pra ser a nossa vida.
      - Ah, Cristina, ser que voc no pode simplesmente aceitar um elogio sem tentar me corrigir? Eu no estou censurando, no.
      - Eu percebi isso, comentou Selena.
      Marta e Cris olharam para a garota.
      - , repetiu ela. Percebi que voc estava querendo era nos elogiar. Obrigada!
      - De nada. Est vendo, Cristina? Essa  a maneira certa do receber uma palavra positiva.
      - Eu tambm gostei do seu elogio, tia, disse Cris.
      - timo! exclamou Marta.
      Aqui ela fez uma pausa e depois continuou:
      - Bom, acho melhor a gente ir andando. Vamos a uma loja de roupas?
      - Que tal a gente fazer um piquenique? props Selena.
      - U! fez Marta. Foi o que acabamos de fazer!
      - Ns pegamos um mapa naquela cabine de informaes, explicou Cris. Eu e a Selena estvamos pensando que seria muito legal se a gente pudesse fazer uma caminhada 
numa montanha dessas e levar um lanche pra comer l.
      - Mas ns j estamos caminhando, retrucou Marta.
      Ao que parecia, ela no entendia por que uma caminhada num morro era mais interessante do que andar por aquelas ruas cheias de lojas.
      - Ento amanh? indagou Cris com um tom esperanoso.
      - Voc vai ter muito tempo para fazer caminhadas nessas montanhas se vier estudar aqui, retrucou a tia, levantando-se e abrindo caminho entre a multido que 
lotava a rua.
      Cris atirou seu saquinho amassado numa lata de lixo prxima.
      - Mas a Selena, no, insistiu ela.
      - A Selena agora precisa  de um vestido, disse Marta em tom firme. Ainda no fomos jantar num bom restaurante, e ela no vai poder entrar em um com esses 
shorts que tem.
      As trs passaram o resto da tarde realizando o desejo da tia de Cris - procurando boas roupas para Selena. Como acabaram se afastando muito do hotel, resolveram 
retornar de txi. Ademais, estavam carregadas de sacolas de compras.
      - Vou fazer uma reserva no restaurante para ns, para as 7:00h, anunciou Marta logo que entraram no saguo. Assim vocs tm duas horas para descansar, tomar 
banho e se aprontr. Selena, no vista a saia de "cigana", no, viu? Ponha a preta!
      - 'T bom, tia, replicou a garota numa voz fanhosa, meio brincalhona.
      Marta virou-se bruscamente e lhe dirigiu um olhar de reprovao. A garota compreendeu que nunca mais deveria fazer esse tipo de brincadeira com ela.
      As duas entraram no quarto e jogaram as compras sobre a cama.
      - Voc vai tomar banho agora? indagou Selena para a amiga.
      - Estou querendo, respondeu Cris. Sabe o que aconteceu? Acho que meus braos ficaram queimados de Sol. D pra acreditar numa coisa dessas?
      - , disse Selena. O Sol estava muito quente quando nos sentamos na frente da confeitaria. Tambm estou sentindo que meu rosto queimou.
      - , queimou um pouquinho mesmo, comentou Cris, examinando o rosto da amiga. Como e que voc consegue isso?
      - Isso, o qu?
      - Parece que est sempre limpa e arrumada. Nem precisa tomar banho. Seu cabelo esta timo, e seu rosto, tambm.
      - Oh, Cris, meu cabelo nunca esta timo, retrucou Selena, pegando algumas de suas mechas "rebeldes". Ele parece que tem vontade prpria. Nunca fica do jeito 
que eu quero.
      - , mas o Alex bem que gostou dele, falou a jovem meio na gozao. Ah, d uma olhada pra ver se tem algum recado pra gente na secretria eletrnica.
      - Parece at que voc leu meu pensamento.
      Cris entrou no banheiro e Selena foi tentar descobrir como funcionava o aparelho de recepo de mensagens. Na gaveta da escrivaninha, havia uma folha de papel 
com instrues em alemo, ingls, francs e italiano. No conseguiu entender nem as esritas em ingls, pois continha muitas palavras tcnicas. Contudo resolveu tentar 
assim mesmo, e ficou apertando os botes que viu ali. Afinal, apertou a tecla certa e ouviu a voz grave de Alex.
      "Aqui  o Alexander, e quero deixar uma mensagem para 'Salena'. Hoje vou ficar o dia todo na casa de meu primo, ajudando-o a consertar o automvel dele. Se 
vocs ainda no fizeram nenhum plano para amanh, gostaria de convid-las para fazermos um piquenique. Hoje  noite ligo de novo, e a podemos combinar melhor. Tchau."
      Selena ouviu o clique do aparelho desligando e na mesma hora seu corao comeou a bater forte. Alex no se esquecera dela. Queria fazer um piquenique com 
ela no dia seguinte, ou melhor, queria sair com ela e com Cris. Marta tinha de deixar. Sua esperana era que a tia de Cris estivesse de bom humor na hora do jantar, 
no momento em que fosse pedir sua permisso.
      Entretanto,  noite, quando saram para jantar, Selena no conseguiu definir como estava o humor de Marta. As duas haviam se aprontado de acordo com as instrues 
da mulher. Ambas estavam com roupas escuras, prprias para a noite. Elas tinham se arrumado com muito cuidado, esmerando na maquiagem. Ao mesmo tempo, haviam conversado 
sobre o convite de Alex. Cris convenceu Selena de que era melhor deixar tudo com ela. Saberia levantar o assunto com a tia da maneira mais adequada.
      Marta estava com um belssimo vestido preto. Usava um colar de prolas e calara um sapato de saltos altos. Quando as trs caminhavam pelo saguo para sair, 
a tia de Cris mais parecia uma estrela de Hollywood participando da entrega do "Oscar".  porta, um txi j as aguardava e conduziu-as a um restaurante muito bom; 
o melhor que Selena j vira. Era um lugar pequeno com um ambiente aconchegante. A iluminao era toda em tons dourados. Havia msica ao vivo, com um trio de cordas. 
Os sons pareciam vibrar no teto pintado em cores delicadas.
      A garota notou que os clientes estavam muito bem vestidos, todos com roupas escuras. Assim que se sentaram, ela se inclinou para Marta e, em voz suave, agradeceu-lhe 
pelas roupas que lhe comprara. Em seguida, pediu-lhe que escolhesse os pratos por ela, j que, num restaurante como aquele, confiava mais na tia de Cris do que na 
prpria capacidade de deciso. Marta ficou encantada.
      O jantar constou de uma sopa de pepino fria, seguida de vitela assada, acompanhada de cenouras ans, que estavam dispostas no prato como um buqu, e um pur 
de batatas fortemente temperado com alho. Ao final, vieram o caf e a sobremesa. Selena achou que a hora da sobremesa fosse o momento ideal para levantar o assunto 
do convite de Alex. As duas garotas se deliciaram com uma maravilhosa torta de chocolate. Marta se limitou a tomar um caf expresso, servido numa xcara pequena 
que, pelo que ela explicou, chamava-se demitasse.
      Cris no disse nada sobre Alex. Ento Selena teve de se controlar e esperar que a amiga encontrasse o momento mais oportuno.
      Afinal, terminaram o jantar e pegaram o txi de volta para o hotel. A alt stadt achava-se profusamente iluminada naquela noite, e havia muita gente caminhando 
em frente das lojas ou atravessando a ponte sobre o rio Reno. Marta pagou o taxista e subiu com as duas garotas. Chegando ao andar, ainda no corredor, ela deu boa-noite 
para as duas.
      - Ah, tia, disse Cris de repente, ainda no resolvemos o que vamos fazer amanh. Vamos l para o nosso quarto pra conversarmos sobre isso.
      - Estou pensando em irmos a escola de novo e conversarmos mais com o Sr. Pratt. Amanh  nosso ltimo dia, replicou Marta. E no dia seguinte iremos embora.
      - Ah! fez Cris novamente.
      - Parece que nosso telefone esta tocando, interveio Selena, encostando o ouvido a porta. Depressa, Cris, abre!
      - Quem ser que esta ligando pra vocs? quis saber Marta.
      Selena entrou correndo e pegou o fone.
      - Al!
      -  "Salena"?
      Ouvindo Alex dizer o nome dela com aquele sotaque to caracterstico a garota se ps a sorrir.
      -  ela, replicou.
      - Aqui  o Alex.
      - Sim, respondeu a garota, tentando reprimir o riso, j sei.
      - Recebeu meu recado?
      - Ahn, han!
      Cris olhava para a amiga com uma expresso de indagao.
      - Quem ? perguntou Marta.
      - Voc gostaria de sair comigo para fazer uma caminhada amanh? perguntou o rapaz.
      A garota fez uma pausa antes de responder.
      - Gostaria, disse afinal, mas tenho de conversar com a Marta sobre isso.
      - Que tal eu falar com ela? Ser que ajudaria?
      - tima idia!
      Selena estendeu o fone para a tia de Cris.
      - Para a senhora, disse, mordendo o lbio e dando um olhar meio de lado para Cris.
      - Al! Quem e? indagou Marta. Ah, sei, Alex... O que ?... Amanh? Sinto muito, mas j temos outros planos.
      Selena sentiu o corao apertado.
      - , sim. Vamos  escola de novo amanh... No, de manh.
      Marta ficou uns momentos em silncio. Selena teve a sensao de que era o silncio mais longo do mundo todo.
      - O.k., ento... Obrigada. Boa-noite!
      Ao ver a tia de Cris desligar, Selena teve vontade de dar um pulo e agarrar o fone. Logo em seguida, porm, ouviu o clique do aparelho se desconectando, e 
sentiu um aperto na boca do estmago. As duas garotas ficaram esperando de olhos fitos na tia.
      - E ento? indagaram juntas.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Treze
      
      Marta olhou para as duas com as mos na cintura.
      - Vocs combinaram isso? indagou ela.
      - No, responderam em unssono.
      - Quer dizer que foi o Alex que decidiu ligar e convidar as duas para fazerem um piquenique?
      - Foi.
      - A bem da verdade, ele j havia ligado antes, explicou Selena. Ele telefonou  tarde, quando estvamos na rua. E deixou um recado dizendo que ligaria  noite. 
Ento, de certa forma, ns sabamos que ele iria nos convidar, mas ainda no tnhamos conversado com ele hoje.
      - Por que no me contaram que ele j havia telefonado antes? quis saber Marta.
      - Porque estvamos com medo de voc, soltou Selena.
      A tia de Cris deixou escapar uma gargalhada.
      - Com medo de mim? Por qu?
      - Ns estvamos com vontade de passear com ele, explicou Cris. Mas achamos que voc no iria deixar, a no ser que estivesse de muito bom humor.
      Marta sentou-se na cadeira da escrivaninha.
      -  essa a idia que fazem de mim?
      - , principiou Selena, a gente percebe que voc no morre de amores peloAlex.
      A garota havia perdido totalmente as esperanas de rever o rapaz. A tia de Cris conversara com ele de forma to fria que prevavelmente destrura todas as possibilidades 
de se encontrar de novo com ele.
      - Pois a imagem que fazem de mim vai mudar, disse Marta, batendo a palma da mo sobre o tampo da mesa. Amanh, s 8:00h vamos tomar o caf l embaixo. s 9:00h, 
o Alex vir nos pegar para nos levar  escola. Depois que terminarmos a conversa l, ele vai me deixar numa cidadezinha prxima da escola, onde est havendo um festival 
de arte. Em seguida, ir levar as duas para um passeio, onde faro um piquenique.
      Selena sentiu o corao danar de alegria. 
      - Maravilhoso! exclamou. Muito obrigada, Marta!
      - Esto vendo? Eu no sou essa velha "desmancha-prazeres" que vocs pensavam. Agora vo deitar. Amanh vamos ter um dia muito agitado.
      A mulher se levantou e, com um rpido giro do corpo, saiu. Selena se ps a danar pelo quarto.
      - No acredito! dizia empolgada. Afinal, sua tia ainda tem um pouco de bondade na alma. Vai ser maravilhoso! Vamos fazer um piquenique na colina! Vai ser super-romntico!
      - Comigo por perto, interveio Cris, no sei no... Mas que bom que deu tudo certo!
      - Ah, ... disse Selena em tom irnico e pegando um travesseiro para jogar na amiga. Mas no foi graas a voc, no, viu? Quando  que voc iria mencionar 
a questo para ela, hein? Na hora em que j estivssemos no avio de volta?
      - Claro que no! replicou a jovem, abaixando a cabea para fugir da almofada que vinha em sua direo. Eu estava com medo, como voc falou. Nunca confessei 
isso antes, mas minha tia s vezes me d medo. Gosto do seu jeito. Voc vai direto ao ponto e fala tudo com muita sinceridade. Pra mim,  muito difcil agir assim.
      - , mas por causa disso estou sempre criando problemas pra mim.
      - Pode ser, mas hoje no criou.
      - Cris, disse Selena, deitando-se de bruos na cama, voc acha certo eu ficar to empolgada s porque vou ver o Alex?
      - Claro, respondeu Cris. Voc ainda pergunta?
      -  porque normalmente eu no fico assim to entusiasmada quando vou me encontrar com um cara. Isso  estranho pra mim. Quero dizer, esse meu relacionamento 
com ele no vai dar em nada. Vamos nos encontrar amanh, mas depois disso, nunca mais.
      - Espere a um pouquinho. Volto j.
      Cris tirou os sapatos, pegou o pijama e foi para o banheiro. Enquanto ela estava l, Selena deixou o pensamento voar livremente. Quando a amiga retornou, Selena 
indagou:
      - Alguma vez voc ja saiu com um rapaz, e depois nunca mais? Quero dizer, voc teve algum "Alex" na sua vida?
      - Mais ou menos, respondeu Cris, ajeitando o travesseiro e acomodando-se na cama. Certa vez, trabalhei como conselheira num acampamento e ali conheci um rapaz 
chamado Jason. Ele me convidou pra sair com ele uma noite. Ele no me disse exatamente aonde iramos, s falou que era pra irmos ao cinema. Eu fui. Mas assim que 
saimos do acampamento, ele pegou minha mo e disse que ia me ensinar a remar.
      Selena soltou um assobio.
      - Essa cantada  bem original! exclamou. E voc gostou dele?
      - Gostei, mais ou menos, acho. Hoje no entendo como posso ter gostado dele, mas tenho certeza de que fiquei muito empolgada. Mas, pensando bem, no sei se 
eu gostava do Jason ou das atenes que ele me dava.
      Selena sentiu sua empolgao esfriar subitamente. E se ela tambm estivesse interessada apenas nas atenes de Alex? No incio das frias, ela ja passara por 
uma experincia semelhante com Drake, um colega da escola. Eles tiveram apenas um encontro, e depois disso, Selena chegara a concluso de que o que ela apreciava 
mesmo era ofato de um rapaz pedir para sair com ela, e no as sadas com ele. Alm disso, era muito complicado definir com exatido o que era aquele relacionamento, 
principalmente quando tinha de explic-lo para as amigas. Entretanto Cris no parecia ter nenhum problema com relao  amizade de Selena com Alex. Quando Drake 
entrara na vida da garota, acontecera algo estranho. Todas as suas amizades ficaram meio abaladas. Agora, porm, sua amizade com Cris no ficara nem um pouco prejudicada 
por causa da presena de Alex.
      - No estou dizendo que me arrependi de ter ido passear no lago com Jason, prosseguiu Cris. Foi muito lindo quando a lua saiu e o luar brilhou na gua. Jason 
havia arrumado a canoa. Trouxera umas flores e uma vela. E tinha trazido tambm alguns biscoitos que guardara do lanche no acampamento. Ele foi at muito gentil.
      - Vocs tinham pedido permisso pra sair do alojamento? quis saber Selena.
      - No, respondeu a jovem. E sempre senti um pouco de remorso por isso. No foi certo a gente sair s escondidas. Ningum ficou sabendo, mas mesmo assim foi 
errado. Perder o culto principal era contra o regulamento, e a gente poderia ter tido muito problema por isso. Durante um bom tempo, fiquei bem incomodada com o 
que fizemos. Afinal, um dia, pedi perdo a Deus e depois escrevi uma carta para o diretor do acampamento e confessei tudo. Ele me mandou uma carta muito legal, mas 
at hoje fico um pouco incomodada por ter quebrado o regulamento. 
      Nesse momento, Selena ficou satisfeita de no ter sado s escondidas para se encontrar com Alex. E ela nem precisara fazer isso, pois tudo estava se arranjando 
direitinho. Contudo entendeu bem o que Cris sentia. Ela tambm teria ficado incomodada por muito tempo, se o tivesse feito.
      - Agora vou fazer uma pergunta muito importante; posso?
      - Quer saber se ele me ensinou a remar? , pra falar a verdade, ensinou sim.
      - No, replicou Selena rindo, voc sabe muito bem que no era isso que eu ia perguntar!
      Cris tambm se ps a sorrir.
      - Se ele me beijou?
      - Beijou?
      - No, respondeu Cris, olhando para o teto e pondo os dois braos embaixo da cabea. Eu me lembro do meu nervosismo. Achei que ele iria me beijar, mas a ele 
estendeu o brao e passou a mo de leve em meu rosto. Mas o fez porque eu estava com umas migalhas de biscoito na pele. Ele deve ter me achado uma boba!
      - No! exclamou Selena. Tenho certeza de que no foi isso que ele pensou.
      Cris virou-se de lado, apoiou o cotovelo na cama e encostou a cabea na mo.
      - Sabe o que eu acho? continuou ela. Muitos dos acontecimentos da vida no so nada daquilo que a gente pensa deles. Esse passeio de canoa, por exemplo. O 
mais importante nele no foi o Jason, nem o nosso relacionamento, nem se nos beijamos ou no. Do que mais me lembro daquela noite - alm da lua cheia, enorme, maravilhosa, 
e do jelto como ela surgiu por trs do morro - foi que ele me perguntou qual era meu grande sonho. Pra mim, aquela noite foi apenas isso.
      A jovem sentou-se na cama e encarou fixamente a amiga.
      - Jason me perguntou: "Qual  o seu grande sonho?" e eu lhe disse algo que nunca havia dito pra ningum.
      Selena tambm se levantou e esperou que a amiga continuasse, sentindo-se muito honrada de ela lhe contar seu grande segredo.
      - Puxa! exclamou Cris empolgada, subitamente se dando conta de outro fato: Fazia tempo que eu no pensava nisso. Eu lhe disse que meu sonho era ir  Europa. 
Expliquei que gostaria de visitar um castelo antigo de verdade e dar um passeio de gndola em Veneza.
      - Foi isso que voc falou?
      Cris fez que sim.
      - No  sensacional?! Eu nem imaginava que viria  Europa duas vezes, no mesmo ano, e que at iria me hospedar num castelo, como aconteceu quando fomos  Inglaterra.
      - , comentou Selena, ento acho que s falta o passeio de gndola.
      Em seguida, ela pensou algo e deu um amplo sorriso para a amiga, sentindo a pele queimada de sol esticar-se um pouco.
      - Interessante que voc tenha se lembrado desse seu sonho de vir  Europa justamente hoje, quando tem de decidir se vai ou no estudar nessa escola. Parece 
coisa de Deus!
      A jovem acenou afirmativamente com uma atitude sria.
      -  mesmo. Talvez Deus j venha me preparando h muito tempo pra estudar nessa escola, e afinal no  apenas um capricho meu.
      As duas permaneceram uns instantes em silncio, sentindo-se bem na companhia uma da outra. Afinal, Selena indagou:
      - Voc acha que seu relacionamento com Jason teve mais a ver com seu sonho do que com a probabilidade de comearem uma amizade ali?
      - . Mais ou menos isso, replicou Cris, falando devagar. O que era para ter acontecido naquele dia era isso mesmo: eu ter coragem de abrir o corao e falar-lhe 
de meu sonho. Pra ser sincera, agora no me importaria muito se ns nos tivssemos beijado. Desde que fosse um beijo leve. Se houvssemos ido mais longe, voc sabe, 
a sim, teria tido importncia.  que a eu teria dado a ele um pouco de minha paixo. E quero reservar toda ela para um homem s.
      - O Ted, interveio Selena.
      - Para o homem com quem vou me casar, seja ele quem for. Eu no dei minha paixo, nem nada do meu ser mais ntimo para o Ted, nem pra qualquer outro rapaz. 
 verdade que j beijei alguns caras, mas pra mim, um beijinho leve e rpido  muito diferente de um abrao apaixonado, prolongado, de um beijo dado com toda a alma. 
Sabe do que estou falando?
      - Por experincia prpria, no. Mas tenho uma idia do que quer dizer. , mas eu nunca pensei nisso dessa maneira. Sempre achei que o ideal  no dar nenhum 
beijo antes do dia do casamento, como o Douglas e a Trcia.
      - Aquilo foi certo pra eles, disse Cris. O Douglas  um rapaz muito carinhoso e afetuoso. Voc sabe como ele gosta de abraar todo mundo, n? Acho que pra 
ele seria muito difcil dar um beijinho leve e rpido na namorada. Creio que ele tambm sabia disso. Ento estabeleceu um padro bem elevado para o namoro, e conseguiu 
cumpr-lo. Eu o admiro muito por isso.
      - Ah, voc esta querendo dizer ento que o padro que voc e o Ted estabeleceram  diferente, mas pra vocs ele  o mais certo? indagou Selena, tentando compreender 
bem a questo.
      - , replicou Cris.  isso. Eu e o Ted estabelecemos um limite pra ns: s beijinhos leves. E ns nos abraamos e andamos de mos dadas tambm. Mas  s isso. 
E pra mim vai ser s isso at eu me casar, seja com quem for que eu me case. Certa vez o Ted me disse que quer me dedicar sua afeio, mas no sua paixo. Pra mim 
est certo, e esse  o meu limite tambm. Agora, afeio pra nos pode ser beijos rpidos. Pra outra pessoa, isso a j pode ser uma tentao.
      Selena estava bebendo as palavras da amiga. Sabia que o que ela estava dizendo era muito sensato. Naquele momento, lembrou-se de Amy, sua amiga e colega de 
escola. Amy havia dito a ela que sara pela primeira vez com um rapaz que conhecera no trabalho. Ela lhe contara, toda orgulhosa, que os dois tinham ficado um tempo 
no carro dele se beijando e trocando carcias. Quando retomasse da viagem, ela iria ter uma longa conversa com Amy. Queria compartilhar com ela algumas das idias 
que Cris acabara de lhe passar. Era bem melhor conversar com a colega do que se por a conden-la, que fora sua primeira reao. Alis, quando fizera isso, Amy ficara 
muito irritada e cara na defensiva. E parecia que essa sua atitude havia afetado profundamente a amizade delas. Agora Selena estava decidida a acertar tudo com 
a amiga.
      - Agradeo muito voc ter comentado tudo isso comigo, disse ela sorrindo para Cris.  bom conversar com algum que j passou por essas experincias e j est 
com tudo bem definido na cabea.
      Cris riu.
      - E eu gostaria de estar com os outros aspectos da minha vida tambm definidos na cabea. Tambm estou achando muito bom falar-lhe sobre essas questes.  
que voc me ajuda muito com algumas coisas que diz, principalmente com relao a minha tia. Vou ser sincera. Eu achava que amos ter muitos problemas nesta viagem.
      - Eu tambm tinha minhas dvidas, comentou Selena, comeando a preparar-se para se deitar.
      - Mas est indo bem melhor do que eu pensava, disse Cris, entrando debaixo das cobertas.
      - , mas ainda tem amanh, interveio Selena, brincando.
      A garota apagou a luz. 
      - Vai ser mais um dia e, de repente, pode haver alguma estante de cartes bem no meu caminho pra eu derrubar.
      Cris se ps a rir.
      - Puxa, parece mentira que aquilo aconteceu!
      Selena tambm deu risada.
      - ; mas, na Floresta Negra, os espaos so bem amplos. No vamos ter nenhum acidente desse tipo. Pensando bem, sei l. Acho que posso "atropelar" uma vaca 
ou algo assim.
      Cris continuou a rir. E as duas ficaram cochichando e rindo como garotinhas de dez anos, at ficarem sonolentas. Afinal Selena caiu no sono. E nunca dormiu 
to bem quanto naquela noite.
Captulo Quatorze
      
      No dia seguinte, quando se dirigiam para a Escola Popular da Floresta Negra, viram gotas de chuva no pra-brisa do carro de Alex.  frente, no alto das colinas 
verdes, via-se uma neblina leve. Selena teve de se esforar para no comear a ter medo de que tivessem de cancelar o passeio.
      E parece que Alex "leu" seu pensamento.
      - Isso  s o orvalho, explicou ele, ligando o limpador. Esse chuvisco vai parar antes de sairmos para caminhar.
      - Se no parar, interveio Marta, vocs devem ir ao festival de arte comigo. Alex disse que  o mais importante desta regio.
      - Mas vai parar, insistiu o rapaz.
      Chegaram  escola  hora marcada. Cris e Marta foram conversar com o Sr. Pratt no gabinete dele. Selena e Alex se sentaram num sofazinho que havia em um canto 
do saguo de entrada. Imediatamente a garota gostou do ambiente, que lhe pareceu bastante romntico. O assoalho era de tbua corrida e estava muito bem encerado. 
Nele, se refletia um enorme candelabro suspenso no teto arredondado. A luminria lembrava uma rvore seca que algum tivesse cortado pelo meio, pintado comm tinta 
bronze e afixado ali de cabea para baixo. Na ponta dos seus "galhos", tremeluziam dezenas de velas.  esquerda, havia uma porta de folha dupla. No centro de cada 
folha, havia um recorte em forma oval, onde estava um mosaico de vidro biselado. A claridade penetrava por ele, indo formar desenhos rendados no cho.
      Tudo que eles falavam ecoava pelo aposento. Ento os dais abaixaram a voz, pondo-se a conversar em cochichos.
      - Temos muitos assuntos para conversar, disse Alex com sua voz grave retumbando no salo.
      - Voc vai me perguntar sobre meu sonho? indagou Selena sorrindo.
      O rapaz franziu a testa.
      - Seu sonho? perguntou ele.
      - Deixa pra l, replicou a garota. Sobre o qu voc desaja conversar?
      Selena notou que nesse dia o cabelo do rapaz estava ainda mais rebelde do que de costume. Em vez de estar todo penteado para trs com apenas uma mecha caindo 
na testa, todo ele estava caindo para a frente. Lembrava-lhe um esquiador que houvesse acabado de descer a rampa de neve e tirado o gorro na chegada. Gostava daquela 
aparncia esportiva dele.
      - O que vai fazer quando voltar desta viagem? indagou o rapaz.
      - Sei l, respondeu ela.
      Tinha muitas idias na cabea, mas voltar para casa era algo em que no estava pensando naquele momento.
      - Acho que vou fazer umas horas extras e comear a me preparar para o incio das aulas, falou afinal.
      - Esta no ltimo ano?
      Ela fez que sim.
      - Este ano eu me formo.
      - E o que vai fazer depois? quis saber ele.
      - Depois que me formar?  isso que perguntou?
      - . O que vai fazer depois?
      Selena deu de ombros.
      - Fazer faculdade em algum lugar. Ainda no sei onde vou estudar.
      - Um americano conhecido meu me disse, continuou Alex, que vocs tm de comear a cuidar dessas questes bem cedo porque, dependendo do caso,  muito difcil 
entrar para a universidade.
      -  mesmo. Em algumas,  sim. Mas eu ainda preciso pensar mais nesse assunto.
      O rapaz acenou concordando.
      - Pensar mais e orar mais, n?  isso?
      Ele estava a alguns centmetros de distncia da garota. Pusera o brao atrs, sobre o encosto do assento. No estava tocando nela, mas era quase como se estivesse, 
pois se achava muito perto e com a ateno toda concentrada nela. Nesse momento, ele se remexeu ligeiramente para se ajeitar e esbarrou a mo no ombro de Selena.
      Passe o brao em meu ombro e me puxe pra mais perto de voc, Alex, pensou ela. Gostaria muito que voc fizesse isso.
      A prpria Selena se espantou com seu pensamento, mas era muito natural que isso lhe ocorresse. Lembrou-se do que Cris lhe dissera na noite anterior e perguntou 
a si mesma se o que estava sentindo era paixo ou afeio. Ou quem sabe a afeio j  o comeo da paixo? indagou a si mesma. Em seguida, sobreveio-lhe outra idia 
complicada. E se eu for uma daquelas pessoas que no conseguem se controlar e expressar apenas afeio? E se eu, de repente, ficar dominada pela paixo? Ser que 
foi o que aconteceu com Amy no dia em que saiu com o Nathan?
      Fez um esforo consciente para voltar a concentrar-se na conversa.
      - Ah, , tenho de orar muito a respeito do meu futuro, disse. Voc tem razo. Preciso orar bastante e comear logo a fazer meus planos. Estas frias passaram 
muito depressa... Mas e voc? Quando ficar sabendo se vai entrar pra universidade?
      - Bem, vou embora dentro de quinze dias e, quando chegar em casa,  possvel que a resposta j esteja me esperando.
      O rapaz sorriu de leve, fazendo realar as "maas" do rosto.
      - Voc no imagina como eu me sentia seis meses atrs, prosseguiu ele. No estava comendo nem dormindo direito de preocupao, com medo de no ser aceito na 
universidade. Agora, porm, mudei por completo.
      Selena no entendeu perfeitamente o que ele quisera dizer.
      - Quer dizer que no est mais preocupado se vai ou no entrar na faculdade?
      - ...replicou Alex em tom pensativo, a preocupao... Mudei totalmente de idia sobre a preocupao. Sabia que a palavra "preocupao" em alemo tem o mesmo 
sentido que "estrangular"?
      -  mesmo?
      O rapaz ergueu as duas mos e colocou-as em volta do pescoo, fazendo o gesto do estrangulamento. Selena deu uma risadinha. O som do seu riso retumbou no teto 
do saguo.
      - Sua gargalhada parece ter uma melodia prpria. Estou comeando a conhecer essa msica e sinto que ela me transmite uma sensao agradvel, comentou ele, 
estendendo o brao e pegando a mo de Selena.
      A garota teve a impresso de que seu corao ia parar.
      - Sabe que existem muitos sons musicais  nossa volta? comentou ele, acariciando de leve o dorso da mo dela. At mesmo no toque de duas pessoas amigas. Sssssiu! 
Escute! Est ouvindo a musica que "brota" de nossas mos?
      Selena teve de reconhecer que de fato ouvira algo, mas era mais um som de tambor ressoando em seus ouvidos. Acreditava que fosse o seu corao, mas talvez 
fosse uma msica mesmo, uma melodia com a qual ela ainda no estava familiarizada. Sorriu para o rapaz e disse:
      - O que voc est ouvindo?
      Alex fechou os olhos e inclinou a cabea para trs, encostando-a na parede, que era recoberta de lambris. Parecia que aquele cantinho do aposento era s deles. 
O rapaz respirou fundo e deu um aperto de leve na mo de Selena.
      - Estou ouvindo o borbulhar das guas de um rio correndo entre pedregulhos e descendo para o mar, respondeu, acrescentando em voz bem suave: "Salena", existe 
um rio dentro de voc.  uma garota tpica das montanhas, e no do deserto!
      Selena sentiu-se calma e relaxada. Experimentava uma agradvel sensao de conforto segurando a mo dele e ouvindo aquelas palavras poticas. Abaixou a cabea 
e olhou para as mos unidas e apoiadas no colo dela. Um pouco acima delas, avistou a mancha de mostarda na cala.
      Acho que nunca mais vou lavar esta cala, pensou.
      - O que voc esta escutando? indagou Alex, abrindo os olhos.
      A garota cerrou os olhos e inclinou a cabea para trs. Por uns instantes, o aposento ficou em completo silncio.
      - No sei, respondeu.
      Jamais saberia dizer algo potico como o que o rapaz dissera.
      - Escute bem, insistiu ele, sussurrando baixinho.
      O toque da mo dele na dela era levssimo. A garota esforou-se para escutar, mas no ouviu nada potico.
      - Estou me sentindo muito feliz! disse ela afinal.
      - Feliz, repetiu Alex. No  sempre que a gente se sente assim, principalmente no lugar onde moro. Mas voc no est sufocada de preocupao, e isso  timo.
      Naquele instante, ouviram vozes no fim do corredor. Obviamente Marta, Cris e o Sr. Pratt estavam voltando. Selena queria que aqueles momentos a ss com Alex 
no acabassem nunca. Pensou se deveria soltar a mo dele, ou se ele soltaria a dela. O rapaz se levantou, puxando-a tambm para se erguer. Contudo no o fez com 
movimentos rpidos, como se quisesse evitar que os outros os vissem. Foi largando a mo dela devagar.
      - E ai? perguntou Selena a Cris. O que resolveu sobre a esccola?
      A jovem olhou para o diretor e em seguida para a tia. Como nenhum dos dois disse nada, ela falou:
      - Liguei para meus pais e conversei com eles sobre tudo.
      - E...?
      Com um lento aceno de cabea, Cris fez que sim.
      - Vou vir estudar aqui, disse. Assumi o compromisso de fazer o curso de um ano.
      - No  sensacional? indagou Marta. Estudar na Europa vai ser timo para Cris. Concorda, Selena?
      A garota olhou para a amiga, procurando ver a expresso de seu rosto. Ela parecia feliz e em paz com a deciso tomada.
      - Maravilhoso! exclamou Selena. Acho que voc vai ter experi^rncias incrveis aqui.
      A jovem fez que sim.
      - S estou preocupada com alguns detalhes, comentou, mas creio que tudo vai se resolver.
      - No se preocupe! interveio Alex, fazendo novamente o gesto de estrangulamento. A preocupao mata!
      Cris fitou Selena como que pedindo uma explanao.
      - L no piquenique a gente explica.
      Uma hora depois, os trs estavam subindo por uma estradinha de terra, na encosta de um morro, tendo Alex  frente. Marta parecera estar satisfeita com a idia 
de passar a tarde no festival de arte. Despedira-se deles com boa disposio e pedira que voltassem no mximo da a duas horas.
      - Est vendo como eu tinha razo sobre o tempo? indagou Alex, fazendo uma parada para contemplarem a paisagem.
      O cu estava muito azul, mas cedia espao tambm a algumas nuvens volumosas que se moviam sonolentamente. Ao redor deles, um imenso tapete de grama verdinha 
cobria o terreno acidentado. Em um lado da estrada, via-se um emaranhado de arbustos, com uma frutinha silvestre, muito bem protegida por galhos cheios de espinhos.
      No caminho, eles haviam passado por algumas vacas que pastavam. Todas elas traziam ao pescoo um enorme cincerro que, ao movimento dos animais, "tocavam" uma 
msica diferente. Cris comentou que achava aquelas vacas mais "engraadinhas" do que as que havia em sua terra. Alex achou graa. Ento ela explicou que tinha muita 
autoridade para falar sobre gado, pois era originria de Wisconsin, um estado com um grande rebanho leiteiro. Disse ainda que seu pai fora pecuarista e que, at 
aos 15 anos, ela morara no interior e vira muita vaca.
      Selena respirou fundo.
      - O ar aqui  to gostoso! Adoro esta vista! exclamou. Que bom que deu pra gente vir, n? Fazer caminhada  meu passatempo predileto. Acho que subir um morro 
assim e ficar acima do resto do mundo faz bem ao meu esprito, concluiu com um ar de felicidade.
      - Tambm acho aqui maravilhoso, disse Cris. E fica to perto da escola. Nem acredito que vou poder vir neste lugar sempre que quiser. Isto aqui e lindssimo!
      - Onde  que vamos fazer o piquenique? quis saber Alex.
      - Aqui mesmo, sugeriu Selena. A vista  belssima!
      - Ento vamos parar.
      Alex deu alguns passos pelo gramado adentro, seguido das duas garotas. Os trs pegaram cada um a sua mochila e as abriram, mostrando sua contribuio para 
o lanche.
      - Espero que no estejam com muita fome, comentou Alex. Eu no trouxe muita coisa, nem  nada especial.
      - No se preocupe, no, interveio Selena. Estamos mais interessadas  no passeio, e no na comida. O lanche  apenas um "bnus".
      - Um "bnus"? repetiu o rapaz.
      - , um brinde extra, explicou ela, procurando definir a palavra que aparentemente ele no conhecia. Alm disso, eu e a Cris tambm trouxemos algo.
      - Dois tabletes de chocolate, disse a jovem, tirando-os da bolsa e colocando-os a frente deles.
      - E eu trouxe uma laranja que sobrou do caf da manh, falou Selena.
      - Ento aqui temos algo para beber, principiou Alex, e eu trouxe um po e um queijo.
      Em seguida, o rapaz pegou um canivete, cortou um pedao do queijo redondo que tinha na mo e estendeu-o para Selena na prpria lamina. Depois, ele tirou outra 
fatia para Cris e a ofereceu  jovem.
      - Humm!  quase um banquete! exclamou ela, pegando o pedao do queijo. Agora me contem que negcio era aquele de estrangular, que vocs mencionaram l na escola? 
Comecei at a ficar com medo.
      - O Alex fez aquele gesto quando voc falou que estava preocupada, explicou Selena.
      Ela partiu um pedao do po que Alex deixara sobre a mochila e contou que o rapaz estivera tenso com a questo de entrar para a universidade. Ento concluiu:
      - Mas depois ele entendeu que a gente no deve ficar apreensivo com nada, pois a preocupao nos "estrangula".
      - 'T certo. E  claro que no quero passar o resto da vida "estrangulada", comentou Cris, pegando a outra ponta do po.
      Como estava com uma das mos ocupadas, no conseguiu tirar um pedao dele. Ento Alex segurou-o e, com a ajuda dele, Cris pde quebrar a ponta. Selena correu 
os olhos ao redor. O dia estava maravilhoso.
      - Gente, no parece que estamos dentro de um quadro pintado? disse.
      A brisa soprava em seu cabelo, erguendo algumas mechas mais leves, e tocou em seu rosto como que a brincar com ela.
      - Cris, quando voc estiver estudando nessa escola e quiser um lugar pra meditar, deve vir aqui.  to lindo!
      -  mesmo, concordou a jovem, tambm correndo os olhos pela paisagem. J estou at me sentindo empolgada de vir estudar aqui. Ja imaginou como isso deve ficar 
lindo no inverno? Depois que mudei de Wisconsin para a Caifrnia, quase no vi neve. Agora, este ano, vou passar um Natal com neve.
      - Alex deitou-se de lado, apoiando o cotovelo no cho. E ali, estirado na grama, parecia perfeitamente tranquilo, sem nenhuma preocupao na vida.
      - E eu no sei o que  Natal sem neve, disse. Mas prefiro muuio mais esse Sol quente.
      Ele estendeu o brao e tocou no rosto de Selena com a ponta dos dedos.
      - Gosto muito do jeito como o Sol aquece sua pele.
      Em seguida, o rapaz partiu outro pedao de po. Selena fechou os olhos e procurou escutar atentamente. O que fora aquilo? Ouvira algo. Talvez fosse o tinido 
distante dos cincerros das vacas ou, quem sabe, o trinado dos pssaros nas rvores. Fosse o que fosse, o certo  que no momento em que Alex tocara seu rosto, sem 
dvida nenhuma, escutara uma melodia.
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Quinze
      
      - No foi s um piquenique gostoso, explicou Selena para Marta quando voltavam para o hotel. Pra mim, foi uma experincia espiritual.
      A tia de Cris soltou uma gargalhada zombeteira.
      - Sabe o que mais, Selena, replicou a mulher, acho que, se voc e minha sobrinha forem lavar a cabea, vo dizer que  uma experincia religiosa. Gente, vocs 
no podem ficar to enfronhadas assim em meditaes celestes. Assim no sero de nenhuma valia aqui na Terra.
      Selena deu uma olhada para Cris, que lhe fez um sinal silencioso de que no respondesse nada. No momento em que buscaram Marta no festival de arte, a garota 
percebera que ela estava com os movimentos um pouco incertos. Ao que parecia, naquele festival havia uma mesa para degustao de vinhos, e a mulher fizera bom proveito 
dela. E pelo jeito como pronunciara a palavra "experincia", arrastando um pouco na fala, Selena teve certeza de que ela abusara mesmo da bebida.
      - O que vo fazer hoje  noite? indagou Alex.
      - Temos de arrumar as malas, interps Marta. A Cris e a Selena no vo poder sair para jantar, porque j temos outros planos.
      - Entao posso vir peg-las para lev-las a estao amanh?
      - Claro, pode, replicou Marta. Temos de sair do hotel s 7:00h. Voc vir nos buscar?
      - Virei, disse o rapaz. Estarei aqui s 7:00h. 
      Instantes depois, paravam em frente do hotel. Nesse momento, grossas gotas de chuva comearam a bater no pra-brisa.
      - Humm, na hora certa, disse Marta. E agora vocs vo dizer que o fato de a chuva descer depois de terem voltado do piquenique tambm foi algo espiritual.
      Nenhum deles disse nada. Alex saiu do veculo, deu a volta e abriu a porta para Marta. Selena e Cris tambm saram e correram para debaixo do toldo. A chuva 
era to pesada, que o barulho lembrava uma saraivada de balas.
      - Est chovendo pra valer! exclamou Selena.
      - Alex, disse Cris, mais uma vez, obrigada por tudo. Ento amanh cedo a gente se v de novo.
      - Isso, replicou o rapaz. s sete. Eu virei.
      Ele se voltou para Selena e lhe dirigiu um sorriso carinhoso. Os dois se olharam por alguns instantes em silncio. Em seguida, Alex se aproximou da garota, 
passou os braos em torno dela e envolveu-a num abrao. Como ela no estava esperando aquele gesto, ficou parada alguns segundos, mas afinal correspondeu e o abraou 
tambm. A seguir, ele se afastou, mas ao faz-lo passou o queixo pelo cabelo dela.
      - Tschuss! disse ele.
      Selena no entendeu a palavra, mas achou que ele devia estar dizendo "Tchau" em alemo ou em francs, ou talvez fazendo uma mistura das duas lnguas.
      - Tchau! respondeu. Amanh ento a gente se v.
      O rapaz se virou e correu para o carro. A chuva estava grossa e fazia tanto barulho que parecia que o toldo iria desabar. De repente, um relmpago iluminou 
o cu, seguido imediatamente de uma trovoada forte.
      - Depressa, gente! gritou Marta para as duas garotas. Vamos entrar.
      A tia de Cris parecia estar em pnico. No momento em que Selena destrancava a porta do quarto, houve outro relmpago. As luzes do corredor piscaram. Trs segundos 
depois, veio o trovo.
      - Isso  pssimo! exclamou Marta, entrando no quarto das garotas junto com elas. No liguem a televisao nem se aproximem da janela.
      - Onde eu morava, na regio montanhosa, comentou Selena, era comum haver tempestades fortes assim. Esta deve ser mais estrondosa do que as chuvas da regio 
praiana onde vocs moram, no ?
      Marta parecia bastante inquieta. Tirou o sapato e se acomodou na cama de Selena.
      - Pois , disse ela, abanando acabea, agora eu queria que o Robert estivesse aqui.
      Selena se deu conta de que era a primeira vez, durante a viagem, que a mulher mencionava o marido.
      - Por que ele no veio? indagou a garota.
      - Ora, por causa do rosto dele, explicou Marta de forma spera.
      Imediatamente, porm, ela percebeu que fora meio indelicada e acrescentou:
      - Quero dizer, a cicatriz ainda no se secou completamente, e acho que ele no deve viajar enquanto no fizer a cirurgia plstica. Ele esta com uma aparncia 
horrvel. Voc sabe, j que o viu. Vocs duas o viram. Acham que ele deveria viajar?
      Selena compreendeu que Marta estava meio alterada por causa do vinho. Em seu estado normal, ela no iria falar do marido de forma to insensvel. Ser que 
a tia de Cris era to obcecada com a aparncia a ponto de sentir vergonha de Bob? Fazia apenas cinco meses que ele sofrera o acidente, ficando com o rosto, o pescoo 
e a orelha queimados. A garota no entendia muito de queimaduras, mas tinha a impresso de que ainda iria demorar um bocado para o Bob estar com uma aparncia apresentvel, 
aos olhos de Marta.
      - E a gente? Vocs acham que ele deveria viajar? repetiu Marta, querendo uma resposta.
      - Acho que vai depender do que os mdicos disserem, respondeu Cris afinal.
      - Ah! fez Marta. Os mdicos no sabem nada! Disseram que iam salvar minha filha; e no salvaram. Disseram que iam me curar; e no curaram. Como  que posso 
acreditar que vo corrigir o problema facial do meu marido?
      Selena dirigiu um olhar cauteloso para a amiga, que se achava sentada na beirada da cama. Cris, como Selena, parecia admirda de a tia haver mencionado a filhinha 
dela com tanta tranquilidade. O grande segredo viera  tona!
      Outro relmpago brilhou no cu, seguido do ribombar do trovo. As trs tiveram um sobressalto. Selena sentou-se na beirada de sua cama, de frente para Marta. 
Compreendeu que, se quisesse bancar a detetive e desvendar o mistrio da tia de Cris, a hora era agora.
      - O que foi que aconteceu com sua filha? indagou, procurando dar  voz um tom bem natural.
      Marta piscou vrias vezes seguidas.
      - Voc j sabe sobre a Johanna?
      - Eu sei, respondeu Cris, sentando-se na cama da amiga.
      Agora as trs formavam um pequeno crculo.
      - Mame me contou, uns anos atrs. Fiquei muito sentida de ela ter morrido, tia. Mas eu gostaria que a senhora tivesse me contado.
      - De que adiantaria?
      - Isso me ajudaria a conhec-la melhor, disse a jovem.
      - Ah! exclamou Marta, dando uma risada. Tem um bocado de fatos que voc no sabe a meu respeito. Nunca fui igual a voc, toda doce e de corao aberto. Tinha 
uma poro de segredos, que quase ningum sabia.
      - Se no quiser, no precisa nos contar nada, interps Cris, num tom de voz cheio de compaixo.
      Marta respirou fundo.
      - No; acho que voc j tem idade para saber. Eu tinha resolvido mesmo que um dia iria lhe contar. Acho que hoje est bom. A sua me sabe, mas pedi a ela para 
no lhe dizer nada, porque achei que eu prpria devia lhe revelar tudo.
      Selena se sentiu um pouco incomodada. Antes tivera a impresso de que estava encarregada da importante misso de fazer com que Marta se abrisse com elas. Agora, 
porm, que ela estava prestes a fazer exatamente isso, parecia que ela deveria conversar apenas com Cris. Sentia que estava sobrando ali.
      - Quer que eu v para o seu quarto pra voc conversar mais  vontade com Cris? perguntou.
      Outro relampago clareou o ambiente, e o trovo ecoou justamente no momento em que a garota terminava a frase.
      - Ah,  melhor voc tambm ouvir o que tenho a dizer. Provavelmente j "adivinhou" o que se passou, replicou a mulher, virando-se para ela.
      Selena notou que a plpebra do olho direito de Marta estava um pouco cada. Naquele momento, a tia de Cris perdera toda a sofisticao.
      - Voc "pega" as coisas no ar, no , Selena? Uma menina to jovem como voc no deveria ter essa percepo to aguada!
      A garota no saberia dizer se Marta a elogiara ou a agredira. Recostou-se na cama e achou que era melhor no responder nada.
      - Vamos l! continuou a mulher. Conte pra minha sobrinha. Ela ainda no entendeu.
      - No entendeu o qu? indagou Selena. No sei mesmo do que voc esta falando.
      - De Johanna. Diga pra ela que a Johanna era filha do Nelson.
      A garota sentiu uma nusea forte. Nesse momento, percebia que havia se enganado quando pensara que seria legal "entrar" na alma de Marta.
      - Quando comeamos a namorar, estvamos muito apaixonados um pelo outro, disse a mulher, contando sua histria. Eu tinha quinze anos. Foi por isso, Cris, que 
eu a convidei para vir  minha casa naquele ano em que fez quinze anos. Queria muito lhe falar sobre o que pode acontecer com garotas bonitas que no sabemnada acerca 
dos homens e da vida. Quando eu tinha aquela idade, no sabia nada.
      Aqui ela fez uma pausa, abanou a cabea e olhou fixamente para a sobrinha.
      - Mas a, quando voc chegou, percebi que era muito diferente de mim. Fiquei sem saber como iria contar-lhe. Achei que, se contasse, voc iria amadurecer depressa 
demais, como ocorreu comigo. E eu no queria isso. Ento resolvi no revelar nada.
      Houve um silncio meio incmodo. Era como se elas estivessem esperando que houvesse um relmpago e um trovo, para romper a tenso.
      - E o que aconteceu? indagou Cris finalmente, em voz baixa e tensa.
      - Aos dezessete eu engravidei. Contei para o Nelson e, sinceramente, esperava que ele se casasse comigo. Mas ele foi embora, e nunca mais o vi.
      - Deve ter sido horrvel pra voc, comentou a jovem.
      - A fui morar com seus pais. Eu disse pra todo mundo que fora para l porque minha irm estava grvida e eu iria ajud-la. Ningum sabia que eu tambm ia 
ter um beb. Minha filha nasceu prematura e era muito fraquinha. Achei que Deus estava me castigando. Mas no entendi por que ele tinha de punir tambm uma criancinha 
inocente. Pouco depois que ela morreu, sua me entrou em trabalho de parto. Achei que eu tambm era culpada disso, porque causara problemas para Margaret. A, no 
dia seguinte, voc nasceu - e era perfeita.
      As luzes do quarto piscaram de novo e em seguida se apagaram. Estava comeando o entardecer, mas, por causa da tempestade, o ambiente se achava bem escuro.
      - Tenho uma lanterna, disse Selena, pegando a mochila no cho.
      - Vocs provavelmente vo dizer que isso  uma "coisa de Deus", no ? comentou Marta em voz fraca e com um tom de amargura. Esta escurido sbita d um toque 
especial a este momento, no d? Pois foi isso que senti no dia em que voc nasceu, Cristina - uma escurido na alma. Minha irm era abenoada por Deus, enquanto 
eu, a terrvel pecadora, era amaldioada. Mudei-me para a Caifrnia e fiz o curso de secretria. Mas tive de trabalhar muito para pagar os estudos. No primeiro emprego 
que arranjei, conheci o Bob. Ele se apaixonou por mim e me aceitou como eu era. Mas eu s estava procurando algum que me amasse. E queria muito ter uma filha com 
ele.
      Quando Marta concluiu sua histria, parecia estar perdendo as energias.
      - Mas o seu Deus no se esquece de nada, no ? Afinal, fiz uns exames e os mdicos constataram que eu estava estril. Depois falaram que eu poderia me tratar 
e ficar curada. Mas isso no aconteceu. Ningum pode brigar com Deus, pode?
      - Claro que pode, interveio Selena. Pode brigar com ele, pr a culpa de tudo nele e ficar com raiva dele o quanto quiser. Mas ele continua sendo Deus. Continua 
no controle de tudo que acontece neste mundo. E ainda a ama.
      Marta soltou um grunhido.
      - , disse, mas ele demonstra esse amor de uma forma muito estranha.
      Selena olhou para Cris, mas na semi-escurido do aposento no conseguiu identificar a expresso dela. A luz da lantema estava voltada para o banheiro, formando 
longas sombras na parede.
      - Mas ele a ama, sim, falou Cris, confirmando as palavras de Selena.
      - Amor! interps Marta, abanando acabea. Vocs duas no tm a mnima idia do que seja amor! No sabem nem um pouco do que estou falando! Se Deus realmente 
me ama e me protege, ele ter de provar isso.
      Ela se inclinou para a frente, tentando erguer-se, mas teve dificuldade. Afinal, abaixou-se, pegou o sapato e se levantou. Suas pernas no pareciam muito firmes.
      - Agora voc j sabe de tudo, Cristina. Sua tia  uma terrvel pecadora e Deus j desistiu dela. Acho que devo me dar por satisfeita de ver que voc  uma 
garota muito boa, e que ele a abenoa.
      - Deus nunca desiste de ningum, tia, disse Cris.
      A jovem se levantou, caminhou rapidamente para perto de tia e se postou ao lado dela. Passou o brao em torn do ombro da tia e continuou:
      - Eu tenho muito amor por voc, tia Marta. Estou muito triste de saber que passou por tanto sofrimento. Mas o amor que sinto por voc no vai mudar. E acho 
que, bem l no fundo, voc sabe que Deus tambm no largou mo de voc, no. Ele est s esperando que se volte para ele.
      Marta no aceitou bem o abrao de Cris. Com um arranco, afastou-se dela e resmungou:
      - Pois ento ele vai ter de esperar um bom tempo, porque tenho de ir arrumar minha mala e pegar o trem amanh.
      Em seguida, com passos vacilantes, foi saindo em direo ao seu quarto. No momento em que ela cruzou a porta, e esta bateu de volta, ouviu-se outra forte trovoada.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Dezesseis
      
      - Cris, disse Selena, cochichando em meio  escurido do quarto, voc est dormindo?
      Fazia vrias horas que elas haviam se deitado. Depois que Marta sara, elas tinham pedido o jantar pelo telefone, pondo-se ento a arrumar as malas. Ao mesmo 
tempo, comentavam a respeito da conversa to profunda que haviam tido com a mulher. L fora, a tempestade continuava. Nesse momento, porm, o tamborilar da chuva 
na janela despertara Selena. Cris no respondeu.
      Ora! Est dormindo. E eu no consigo dormir de novo. 
      Comeou a desejar que Marta houvesse demonstrado um pouco mais de interesse, quando a amiga dissera que ela precisava se voltar para Deus. Fora isso que acontecera 
com Bob, quando ele sofrera o acidente na churrasqueira. Antes, ele sempre dizia para Cris que no precisava de Deus. Aps o acidente, porm, mudara completamente. 
Quando ainda estava no hospital, ele entregara a vida a Cristo. Com ele, ocorrera uma transformao instantnea, o que era visvel a todos.
      Selena estava convencida de que alm de Marta no querer nada com Deus, ela tambm passara a tratar o marido com frieza, depois que ele se convertera. Ento 
a garota se ps a orar. E orou durante um bom tempo, naquela noite tempestuosa. Nessses ltimos dias, haviam acontecido vrios fatos, todos eles muito importantes.
      A chuva batia forte na janela. O vento soprava com um assobio agudo, estridente, que parecia encher todo o quarto. O barulho da tempestade lembrou-a do texto 
que Alex lera em 1 Pedro 4.7,8. "Ora, o fim de todas as coisas esta prximo; sede portanto, criteriosos e sbrios a bem das vossas oraes. Acima de tudo, porm, 
tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multido de pecados." Selena estremeceu.
      Agora que compreendia melhor os problemas de Marta, arrependeu-se de ter feito um julgamento negativo sobre ela. A Cris agira da maneira certa. Ela amava a 
tia incondicionalmente. Selena fechou os olhos e orou a Deus, pedindo-lhe que a ensinasse a ter esse tipo de amor.
      Entretanto, de manh cedo, seu propsito de amar incondicionalmente foi logo submetido a uma prova. Marta no levantara com boa disposio. Logo de incio, 
gritou com as duas garotas por haverem se atrasado para descer ao saguo. Alex j as esperava embaixo. Contudo, assim que ele as cumprimentou, a tia de Cris se ps 
a agir como se no tivesse aceitado o oferecimento do rapaz para lev-las a estao. Ele pegara as malas delas, mas a mulher ordenou-lhe que as pusesse de volta 
no cho. Iriam tomar um txi. Ele podia ir embora.
      O mau humor dela estava comeando a dar nos nervos de Selena. A garota tentou manter-se calma diante daquela mudana da tia de Cris. Contudo, quando Marta 
se ps a destratar Alex, ela no aguentou mais e partiu em defesa dele.
      - Ontem voc disse que Alex poderia nos levar a estao, falou ela, dando um olhar irado para a outra. Ele teve o trabalho de vir aqui nos pegar. No acha 
que temos de ir com ele?
      Marta tambm fitou a garota com raiva.
      - Ah! Que seja, ento! disse. Faam o que acharem melhor. Estou vendo que minha opinio no tem nenhum valor.
      - Vou ajud-lo a levar as malas para o carro, disse a garota ao rapaz. Onde foi que voc estacionou?
      Alex foi caminhando na frente, seguido de Selena, Cris e Marta, por ltimo.
      - Por favor, Alex, disse a garota. No deixe isso perturb-lo. Desculpe-a por hav-lo tratado daquela maneira.
      - Isso no  sua responsabilidade, Selena, replicou ele. Voc no precisa pedir desculpas. Parece que dentro do corao dela esta se travando uma grande batalha.
      Selena fez que sim. O rapaz entendera o que estava acontecendo. Talvez compreendesse at melhor do que ela e Cris.
      O carro foi rodando pelas ruas alagadas at a estao, a Badisher Bahnhof. O cu estava carregado de nuvens cinzentas, e uma chuva fina caa sem parar. A fraca 
luminosidade do ambiente tirava um pouco da beleza das cores vivas que elas haviam visto naquela mesma rua no dia anterior. Na parte interna da confeitaria, onde 
tinham estado, havia uma luz amarela viva e alegre, mas todas as outras lojas se mostravam sombrias, como o prprio dia.
      - J esto com as passagens ou ainda vo comprar? indagon Alex.
      -  claro que j estamos com elas, respondeu Marta asperamente. Assim que chegarmos  estao, quero a bagagem no trem, e as duas imediatamente seguindo para 
suas poltronas.
      - 'T bom, disse Cris.
      Selena estava tentando imaginar um jeito de se despedir de Alex. O rapaz certamente deixara uma marca profunda nela, apesar de terem passado to pouco tempo 
juntos. Reconhecia que havia mudado nesses poucos dias que passara ali; e sabia que, em parte, fora por causa da influncia dele. Precisava contar-lhe isso; e queria 
dizer-lhe em particular, de pertinho, para que pudesse uma vez mais fitar aqueles olhos escuros.
      Elas haviam se atrasado para descer para o saguo exatamente porque Selena voltara ao quarto para escrever seu endereo numa folha de papel timbrado do hotel. 
Sua inteno era aguardar o momento mais adequado para lhe entregar. Por isso, no poderia concordar com o que Marta dissera, isto , que embarcassem assim que chegassem. 
Ento ficou em silncio.
      Afnal, Alex parou o carro junto ao prdio da estao. Selena alegrou-se ao ver os lees de concreto guardando a entrada do prdio. Eles lhe lembravam a histria 
de "Aslam", e, por conseguinte, de Cristo. Orou em silncio, pedindo a Deus que lhe arranjasse uma oportunidade para se despedir do rapaz da maneira que queria, 
do jeito que achava que precisava.
      Alex entrou na plataforma com elas, pegou um carrinho e foi empurrando a bagagem delas at a linha de nmero 7, onde o trem delas estava estacionado. Alguns 
passageiros j estavam embarcando.
      Marta remexeu em sua bolsa e depois examinou os papis que trazia nas mos.
      - Minha passagem! exclamou com voz estridente. Perdi minha passagem! A da Cris e a de Selena esto aqui, mas a minha, no.
      - Olhou nas malas? indagou Alex.
      - No est nelas, no.
      - Acho que devemos procurar, disse Cris, abaixando-se para abrir o zper da mala da tia.
      - Est trancada, interveio Marta em tom spero. Espere, deixe que eu abro.
      - Vou procurar no carro, ofereceu Alex.
      - Vou com ele, disse Selena.
      A garota estava comeando a entrar em pnico, no por causa da passagem, mas por pensar que nunca mais veria o rapaz. E se no conseguisse dizer-lhe tudo que 
estava em seu corao?
      Antes que Marta pudesse fazer alguma objeo, Selena e Alex j estavam correndo pela plataforma em direo ao ponto onde ele deixara o carro. Alex destrancou-o 
rapidamente e se ps a procurar debaixo dos bancos. Selena deu busca no assento de trs e depois no porta-luvas.
      - No achei, disse ela.
      - Nem eu. Talvez a passagem esteja na mala e a essa altura elas j a tenham encontrado. Vamos voltar, seno voc perde o trem.
      O rapaz trancou o veculo e os dois se puseram a correr de volta  linha nmero 7. Quando chegaram junto ao longo comboio, ambos ofegavam de cansao. Havia 
dezenas de pessoas na plataforma, mas nem Cris nem Marta se achavam por ali. Perto deles, um casal jovem estava dando um prolongado abrao de despedida. Era assim 
que Selena queria se despedir de Alex. Agora, porm, seria dificil. Tudo estava muito agitado.
      - Onde ser que elas foram? indagou Selena arfando.
      - Talvez tenham encontrado a passagem e entrado no trem, disse Alex.
      - Ah, mas elas no iriam sem mim!
      - Devem ter pensado que voc naturalmente iria embarcar se no as visse aqui.
      A garota olhou para um lado e para outro. No se via nem sinal delas.
      - O que  que eu fao, Alex?
      - Acho que deve entrar no trem. Se o perder, no conseguir chegar ao aeroporto a tempo de pegar o vo de volta.
      Desistindo de seu intento de ter uma despedida romntica e colocar despistadamente na mo dele o papel com seu endereo, Selena ps o p no primeiro degrau 
da escadinha do vago e segurou no corrimo, mas parou. Havia algo errado. Seu corao comeou a bater forte, como acontecera no avio quando tivera o pesadelo e 
sonhara que ele ia cair. Virou-se e deu mais uma olhada pela plataforma.
      - Tchau, Selena, disse Alex, erguendo o brao como se a estivesse abenoando. Que Deus esteja sempre com voc!
      Uma campainha soou alto, e o comboio arrancou. A garota compreendeu que tinha de acabar de entrar, mas ainda tinha a sensao de que no deveria. De repente, 
ouviu algum chamando seu nome, no meio do pessoal que se achava na plataforma. Com um barulho semelhante a um assobio, o trem se ps a rodar lentamente, partindo 
da estao.
      - Alex, gritou ela, tive a impresso de que ouvi a voz de Cris me chamando. A na plataforma!
      O rapaz se ps a caminhar rapidamente acompanhando o trem. Correu os olhos pela estao e em seguida fitou Selena.
      -  ela! Est aqui! Pule, Selena, eu a pego!
      O sentimento de pavor que comeara no corao agora dominava seu estmago e sua garganta, deixando-a imobilizada.
      - Pule! repetiu Alex. Voc tem de pular! Eu a pego! Agora!
      Selena prendeu a respirao e saltou do trem, em direo a Alex que a esperava com os braos abertos.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Dezessete
      
      Selena bateu em cheio contra o peito do rapaz. O impacto foi to forte que ele no conseguiu se manter de p. E como ele passara os braos firmemente em torno 
da garota, os dois tombaram no cho.
      - Aaaai! exclamou Selena.
      - Ufff! fez Alex.
      - Voc se machucou? indagou a garota enquanto se levantava.
      O rapaz estava com os olhos arregalados. Movia a boca, mas dela no saa nenhum som.
      - Ah, no! disse ela, inclinando-se e pegando a mo dele. Eu o machuquei!
      Alex fez fora para dizer algo, mas s conseguiu tossir. Teve um longo acesso de tosse. s suas costas, os ltimos carros do trem passavam pela plataforma, 
saindo da estao. Afinal, acabou o barulho.
      - Selena! gritou Cris, chegando onde eles se encontravam e se ajoelhando junto dos amigos. Vocs se machucaram? Vi quando voc pulou. Pensei que ia morrer!
      - Parece que o Alex quase morreu, disse Selena.
      As duas garotas ajudaram o rapaz a se sentar no cho. O cabelo dele estava todo cado nos olhos. Ele abanou a cabea e respirou fundo.
      - J passou! disse afinal. Perdi o flego!
      Ah, me desculpe! pediu Selena. No devia ter pulado com tanta fora. No pretendia derrub-lo. Desculpe, Alex!
      - Tudo bem! replicou o rapaz com voz trmula e levantando-se.
      - Cris, onde  que vocs estavam? No vimos voc nem a Marta em lugar nenhum. Achei que tinham embarcado.
      - Estvamos bem ali, respondeu Cris. Marta esta sentada num banco, e nossa bagagem est perto dela, no carrinho. Pode ser que as malas estivessem nos tapando 
e por isso vocs no nos viram. Estamos no mesmo lugar onde vocs nos deixaram. Devem ter entrado por outra porta, pois saram em outro ponto da plataforma.
      Os trs se puseram a caminhar para onde se achava a tia de Cris.
      - Encontraram a passagem? quis saber a garota.
      - No, disse a jovem. Procuramos em tudo e no encontramos. Parece que minha tia vai "explodir", como diz meu pai. Ento achei melhor ela sentar um pouco.
      - Sinto muito ter causado esse problema pra vocs, Cris, falou Selena com voz tensa.
      - No se preocupe, replicou a jovem. No  culpa sua. J disse pra Tia Marta que Deus est no controle de tudo e que no precisamos nos preocupar. Voc sabe, 
n, a preocupao estrangula a gente, concluiu ela, imitando o gesto que Alex fizera no dia anterior.
      - E o que foi que ela disse?
      - Quase me estrangulou, ento no falei mais nada.
      - Bem pensado!
      - A, aconteceu algo muito estranho. Eu estava sentada no banco ao lado dela e, de repente, olhei pra c, pra esse lado, e avistei sua mochila e seu cabelo 
louro. Ento percebi que era voc que estava aqui.
      - Que bom que voc me viu! exclamou Selena.
      - ! Que bom mesmo!
      Nesse momento, chegaram ao lugar onde Marta se encontrava sentada, com os braos cruzados, muito tensa. Tinha no rosto uma expresso carrancuda, cheia de amargura. 
E o pior de tudo foi que ela no disse nada. Selena estava na expectativa de ter uma longa discusso com a mulher, para se defender. Contudo a tia de Cris no deu 
o primeiro "soco". Limitou-se a ficar ali parada, olhando para os trs, como se eles fossem os culpados de tudo. Afinal, Alex, que havia recuperado o flego, quebrou 
o silncio.
      - Posso dar uma sugesto? disse ele em tom calmo. Que tal irmos ao guich e ver se eles tem tudo registrado no computador? Assim eles podem emitir uma nova 
passagem, e vocs podero pegar o prximo trem.
      Ao que parecia, a idia no agradou a Marta, que permaneceu calada e quieta.
      -  gente, temos de tomar alguma providncia, interveio Cris. Quem sabe eu posso ir ao guich pra verificar isso? Vocs ficam aqui me esperando.
      - No! retorquiu Marta em tom firme. No vou deixar ningum arredar o p daqui nem um segundo. Vamos todos juntos. Alex, pegue a bagagem!
      Selena sentiu uma forte irritao. Marta tivera muitas atitudes negativas, e a garota no se incomodara. Contudo, no instante em que deu a ordem rspida para 
o rapaz, isso a perturbou. A tia de Cris poderia dizer o que quisesse a Selena, que esta no se importaria. Sabia que no era a culpada da confuso que se criara. 
Afinal, o tempo todo estavam apenas tentando procurar a passagem de Marta. Simplesmente no havia razo para ela tratar Alex daquele modo. E como ela ja havia sido 
tao simptica com ele algumas vezes, a descortesia que demonstrara agora parecia ainda mais gritante. No dava para se saber com antecedncia quando ela iria trat-lo 
bem e quando no iria.
      - Pode me dar uma bolsa pra carregar, ofereceu Selena para o rapaz.
      - Pra mim tambm, interps Cris.
      Marta saiu caminhando  frente dos outros, com passos rpidos e firmes, como quem est com raiva. Chegando ao guich, tiveram de entrar na fila. Havia seis 
pessoas antes deles. A tia de Cris comeou a reclamar da lentido e da incompetncia dos funcionrios. As garotas ficaram meio sem graa de estar ao lado dela. Afinal, 
depois de uns dez minutos, chegou a vez deles.
      - Deixe-me explicar a situao para ele, esta bem? pediu Alex, assim que se aproximaram do guich. Quer dizer, se voc achar melhor, acrescentou o rapaz prontamente.
      Marta estava por demais irritada e novamente optou pelo silncio. Alex no esperou mais e logo se ps a explicar rapidamente a situao delas para o homem, 
falando em alemo. O atendente replicou tambm nessa lngua, com palavras que pareciam ter um tom spero. O rapaz respondeu, evidentemente, contra-argumentando e 
procurando uma sada para o problema. Nesse momento, porm, no alto-falante da estao, algum comeou a dar um aviso, falando em alemo. Dessa vez no era um anncio 
de partida e chegada de trens. Tratava-se de algo diferente. Todos os que estavam por ali pararam e se puseram a escutar atentamente. Selena notou que alguns dos 
presentes tinham uma expresso de espanto no rosto; outros, de irritao.
      - O que foi que disseram? indagou ela para Alex, cochichando ao ouvido dele.
      - Todas as viagens para o Norte foram canceladas, explicou ele, erguendo um dedo para pedir silncio, pois ainda estavam falando.
      - Mas  justamente para o Norte que temos de ir, disse Marta.  o nosso destino. Como  que eles vo cancelando assim todas as partidas para l? Que pas  
este?
      Selena ficou com os olhos fixos no rosto de Alex. Sentia uma forte agitao dentro de si. Mordeu o lbio inferior e continuou observando a expresso do rapaz. 
Este ergueu levemente as sobrancelhas e em seguida abaixou-as rpido. Viu que os lbios dele formavam uma interjeio de espanto.
      - Oh! fez ele, soltando o ar lentamente.
      Todos que se achavam na estao passaram a resmungar, mas, afinal, ouvindo o comunicado que prosseguia, ficaram em silncio. Alex fechou os olhos com fora, 
e abanou a cabea.
      - Houve um acidente com o trem de vocs, explicou ele.
      Olhou para cada uma das trs mulheres e depois tocou o dedo no rosto de Selena.
      - Aquele trem em que voc quase embarcou, continuou o rapaz, descarrilou a dois quilmetros daqui. Ao que parece, a chuva deixou o terreno muito alagado e 
os trilhos cederam ao peso do trem. Eles acham que h muitos mortos.
      - No! exclamou Selena.
      Alex passou um brao em torno da garota e o outro em torno de Cris, procurando confort-las. Depois aproximou-se de Marta para abrac-la, mas a mulher no 
aceitou o abrao. Deu um passo, afastando-se dos outros. Fitou-os com os olhos arregalados de terror.
      - Ns poderamos ter morrido! disse afinal.
      Todos permaneceram em silncio por alguns instantes, tentando absorver a idia. O atendente do guich disse algo a Alex em tom brusco. O rapaz ergueu uma das 
mos e respondeu:
      - Ah, agora pode deixar. Danke.
      Ele conduziu as trs mulheres para um banco em um lugar aberto. Elas pareciam ainda meio "passadas" com a notcia. Fez com que se sentassem e colocou a bagagem 
ao lado delas.
      - Esperem um pouco, disse, vou dar um telefonema. Esperem aqui, est bem?
      - Ns vamos ficar quietas aqui, respondeu Marta, ainda meio entorpecida.
      Assim que o rapaz se afastou, Selena comeou a dar sugestes.
      - Podemos pegar um nibus, no ? Ou, quem sabe, seria melhor alugar um carro? O que vocs acham?
      - Eu estou pensando  que poderia ter morrido, comentou Marta.
      - Acho que voc no vai gostar muito do que vou dizer, Tia Marta, principiou Cris, mas j entendeu o que aconteceu? Deus nos protegeu. O fato de voc ter perdido 
a passagem, na verdade, no foi uma tragdia. Foi um ato de Deus. Por causa disso, no tomamos aquele trem. Lembra que ontem voc disse que, se  verdade que Deus 
a ama e a protege, ter de provar? Pois bem, ele acaba de provar.
      Dessa vez, Marta no berrou com a sobrinha por estar espiritualizando uma situao da vida. No disse nada, e uma lgrima escorreu de seus olhos. Em seguida, 
veio outra, e mais outra. Ela abriu a bolsa e pegou um leno de papel. Selena sentiu-se toda trmula interiormente. Parecia que ela se encontrava ali para assiatir 
a um milagre: Marta quebrantando o corao para Deus.
      - Onde fica o toalete? indagou a tia de Cris, com o rosto muito plido, erguendo-se rapidamente.
      - Ah,  l atrs, disse Cris. Vi quando passamos por ele. Quer que eu v com voc?
      - Se quiser, retrucou a mulher, j se virando na direo que a jovem apontara.
      Selena ficou sozinha, vigiando a bagagem e aguardando que Alex retornasse. Quando o rapaz voltou, tinha um largo sorriso no rosto.
      - Meu primo disse que tudo bem, falou ele.
      - Tudo bem, o qu?
      - Eu posso ir com o carro dele. Vou lev-las ao aeroporto.
      - Que timo, Alex! exclamou Selena, feliz com a possibilidade de passar mais algum tempo em companhia dele. Voc sabe que leva vrias horas, n? Ah, voc sabe. 
Oh, Alex, isso  muito legal de sua parte! A Marta e a Cris foram ao toalete. Devem voltar j.
      - Ento vou colocar as malas no carro. Ou voc acha melhor esperar que elas voltem?
      - Sei l. Talvez seja bom esperar, para a Marta no ficar mais irritada.
      - Est bem, concordou o rapaz. "Salena", eu estaa querendo muito uma oportunidade de lhe dizer como foi bom passar esses momentos com voc. Creio que me lembrarei 
de voc pelo resto da vida.
      Pronto! Chegara o instante que Selena tanto desejara - poder despedir-se de Alex de forma carinhosa. Agora, porm, pega de surpresa, no sabia o que dizer. 
No fora assim que planejara tudo.
      - Eu tambm queria lhe dizer o mesmo, replicou ela.
      Enfiou a mo no bolso para verificar se o papel com seu endereo estava ali. Agora que chegara a hora de sugerir-lhe que os dois se correspondessem, ficou 
acanhada. E o mais estranho era que essa emoo era novidade para ela.
      Contudo fez um esforco, estendeu a mo e tocou no brao do rapaz. Seu plano, antes, era pegar na mo dele, como ele pegara na dela, quando estavam no saguo 
da escola. E assim, de mos dadas, iria lhe falar de seus sentimentos. Ela at pensara que, a essa altura, ele j poderia ter pegado na mo dela novamente e lhe 
falado do que sentia a seu respeito. Entretanto ele acabara falando sem tocar nela. Ento sentia-se sem jeito de segurar a mo dele. Selena deu um aperto de leve 
no brao de Alex e em seguida soltou-o.
      - Alexander, disse ela, nesses dias, voc dedicou muito do seu tempo a ns. Quero lhe dizer que seu amor intenso despertou minhas paixes.
      O rapaz ergueu uma sobrancelha.
      - Espere a. No era isso que eu queria dizer. Faa de conta que no falei nada disso. O que eu quis dizer... voc sabe... aquele versculo, aquele que fala 
sobre ter amor intenso.
      Alex ia replicar, mas nesse momento uma voz masculina comeou a dar outro aviso pelo alto-falante. O rapaz se ps a ouvir atentamente e depois deu a interpretao.
      - Eles esto tomando providncias para que os passageiros que j tinham comprado passagem possam pegar um nibus. Vocs vo preferir ir de nibus ento, em 
vez de ir de carro comigo?
      - Ns no temos os trs bilhetes para trocar pelas passagens de nibus, explicou Selena. Acho que Marta se sentiria mais confortvel indo no carro.
      - , tem razo. D licena, "Salena". Vou l verificar o parqumetro, para ver se o tempo no expirou.
      O rapaz virou-se e saiu apressadamente, deixando a garota sozinha.
      - ... acho que fiz tudo errado, resmungou consigo.
      Talvez ele esteja pensando que sou biruta, por ter dito que ele despertara minhas paixes. Puxa, no estou sabendo agir direito. Primeiro caio em cima dele 
e o derrubo no cho. Depois, digo algo que o deixa assustado e ele sai correndo. Pai celeste, por favor, intervenha nessa situao!
      Assim que Selena pensou isso, sentiu-se incomodada. Deus j interviera. Fora ele que a tirara daquele trem. Centenas de passageiros tinham permanecido nele 
e agora alguns haviam morrido. De repente, teve um choque. Nesse momento, compreedia que poderia estar morta. Enxergou claramente os contrastes que a vida podia 
apresentar. A vida era simplesmente maravilhosa e, ao mesmo tempo, podia ser horrvel. Havia esses dois lados, e ela vivenciara ambos nesses ltimos dias.
      E no entanto a vida era tambm um presente de Deus. Era ele quem dava a vida a todos e, obviamente, poderia tir-la na hora que quisesse.
      Ele  Deus, pensou Selena. Pode fazer o que bem quiser.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Dezoito
      
      Quando as outras duas voltaram do toalete, Selena notou que Marta no estava passando nada bem. Aps uma breve pausa, Alex ofereceu-se para lev-las ao aeroporto, 
e ela aceitou sem pestanejar.
      Selena acomodou-se no assento traseiro do carro, lembrando-se de que estava viva por um milagre. Agora precisava aproveitar da melhor maneira possvel cada 
minuto de sua vida. Deus havia decidido deix-la na Terra um pouco mais, e ela queria tirar o mximo proveito desse presente divino. Lembrou-se do jovem casal que 
estava se despedindo na plataforma e sentiu um n na garganta. Ser que aquela jovem fora uma das vtimas do acidente, ou ainda estava viva?
      Comeou a chorar em silncio e virou o rosto para um lado Alex, Marta e Cris tambm viajavam calados. E as lgrimas escorriam copiosamente pelo rosto de Selena. 
A paisagem l fora transmitia uma sensao de paz e calma. Ora viam-se colinas verdejantes; ora, extensas plantaes de milho. Como  que tudo ali poderia continuar 
assim to belo e tranquilo, quando alga to horrvel havia sucedido? Ela sabia, porm, que nunca havia respostas prontas para as grandes indagaes da vida. A existncia 
humana era maravilhosa, mas ao mesmo tempo, horrvel. Assim era a vida.
      Entretanto o fato de ter conscincia dessa dura realidade no lhe trouxe nenhum conforto. E o carro ia rodando velozmente, passando por um povoado atrs do 
outro. Todos eles pareciam aldeiazinhas de conto de fadas. A maioria das residncias que avistavam tinha um jardim e uma horta, com seus pes de verdura e flores 
de cores vivas. Aquele cenrio colorido serviu para acalmar um pouco a garota. Contudo o cu ainda continuava "carrancudo", ameaando derramar suas "lgrimas" de 
novo.
      Marta reclinara um pouco o banco da frente e estava com a mo na testa. Cris indicou, com gestos, que ela passara mal no toalete, na estao ferroviria, e 
chegara a vomitar. Selena logo comeou a imaginar que talvez tivessem de parar no meio da estrada para ela. Sabia que viajar daquele jeito era muitssimo desagradvel. 
Possivelmente ela estava se sentindo mal por haver consumido muito vinho no dia anterior, aliado ao fato de que tinha ficado bastante nervosa por terem sido obrigadas 
a perder o trem. A despeito disso, Selena sentiu muita pena dela.
      A estrada era estreita, mas estava em excelentes condies. Agora passavam por uma campina longa, onde se viam ovelhas pastando.
      - Elas parecem pedaos de marshmallow em cima de um bolo com um glac verde, no parecem? comentou Selena.
      - O que  marshmallow? quis saber Alex.
      Estavam conversando em voz baixa para no incomodar Marta, mas mesmo assim a voz do rapaz pareceu retumbar.
      Selena explicou o que era marshmallow, e Alex se ps a falar de um doce que eles tinham na Rssia. Explicou que era branco e tinha a forma de um cubo. Pela 
sua explicao, Selena imaginou algo como um tablete de margarina, do tamanho de um po de forma.
      - Vocs comem essa margarina pura?
      - No; no  margarina, no;  um doce fino. Eu sei o que  margarina.
      Novamente ele descreveu a iguaria e contou como era preparada, procurando fazer com que as duas garotas a "enxergasem".
      - Parece com algo que nos chamamos de "banha", felou Cris, torcendo o nariz. Mas ns nunca comeramos banha, nunca mesmo!
      - Pare a! gritou Marta.
      Alex parou o carro perto de um arvoredo. Marta abriu a porta e saiu meio trpega. Inclinou-se sobre a valeta lateral e vomitou ali mesmo.
      - Ser que devo ir l? indagou Cris.
      - Quando ela passou mal na estao, pediu que voc a ajudasse? perguntou Selena.
      - No.
      - Ento provavelmente no quer que voc va l agora tambm, no, concluiu. Tem leno de papel a?
      A jovem pegou a bolsa da tia no assento da frente e tirou dela um pacotinho de leno de papel.
      - Melhorou, tia? disse ela para Marta, entregando-lhe o pacote.
      - J, j eu melhoro, respondeu a tia. Se vocs fizerem o favor de mudar o assunto da conversa.
      - Desculpe, murmurou Cris.
      - Vamos embora, Alex, disse a mulher, erguendo o banco e abaixando a vidraa do carro. No podemos perder aquele avio.
      - Vou ter de parar para abastecer no primeiro posto que encontrarmos, avisou o rapaz.
      - Tudo bem, replicou Marta. E  claro que vou pagar, viu? Mas v o mais depressa possvel.
      Pararam num posto que ficava no entroncamento da estrada com a rodovia principal, ou autobahn, como disse Alex. Cris e Selena foram  lojinha de convenincia 
e compraram gua mineral e balinhas de hortel para Marta. Pegaram tambm refrigerantes para elas e o Alex, e ainda alguns pacotes de biscoitos e barinhas de cereais.
      -  igual aos postos de gasolina dos Estados Unidos, comentou Selena quando voltavam para o carro. A nica diferena  o nome dos refrigerantes e dos biscoitos.
      - E o preo tambm, interveio Cris. Deu pra voc ver o preo da gasolina?  o dobro do nosso.
      - , na prxima vez que for encher o tanque l, vou me lembrar disso, disse Selena. Acho que a gente no aprecia devidamente o lado bom da vida em nossa terra.
      - Isso  verdade, concordou Cris, no momento em que as duas se acomodavam no carro. Eu estava pensando como  que vou me arranjar aqui sem carro. Mas acho 
que acabo me acostumando a andar de nibus e de trem. Terei de aprender a me virar aqui. Vai ser uma vida nova pra mim.
      - Alex, interps Selena, batendo de leve no ombro dele, muito obrigada por estar nos levando ao aeroporto, viu?
      Ele estava entrando na autobahn e acelerando mais o carro para acompanhar o trfego rpido da rodovia.
      - A que velocidade estamos indo? indagou Selena.
      - Sei l, replicou Cris, mas a Alissa, uma amiga minha, me falou sobre o jeito como o povo dirige aqui nessas autobahns. Disse que eles andam a 160km por hora. 
E eu no acreditei.
      Naquele momento, Alex fez uma manobra rpida para mudar de pista, e Cris ps a mo na perna da amiga, dando-lhe um aperto de leve.
      - Agora eu acredito! concluiu.
      Pouco depois, chegavam ao aeroporto. No havia dvida de que a viagem de carro foi bem mais rpida do que a de trem. Entraram, foram ao balco da companhia 
despachar a bagagem e depois se sentaram para aguardar a hora do embarque. A essa altura, Marta j parecia ter melhorado.
      - Est melhor, Marta? indagou Selena.
      - Estou, obrigada, respondeu a tia de Cris, remexendo na bolsa. Alex, muito obrigada a voc tambm. Voc nos ajudou demais. Aqui. Tome isto para pagar as despesas.
      - No precisa, no, replicou ele, erguendo uma das mos e recusando o dinheiro. Eu queria muito traz-las aqui.
      - Foi muita gentileza sua. Muito obrigada mesmo, retorquiu a mulher, guardando as notas e dando uma espiada para o relgio. Acho que agora temos de nos despedir 
de voc. Vamos embarcar daqui a alguns minutos.
      Selena estivera pensando no que iria acontecer quando chegasse esse momento. Ser que iria ficar meio sem jeito de se despedir do rapaz na frente de Marta 
e Cris? Deveria tentar explicar para ele o que quisera dizer quando falara que ele despertara suas paixes?
      - Alexander, disse Cris, aproximando-se dele e dando-lhe um afetuoso aperto de mo, estou muito feliz de t-lo conhecido no trem, no dia em que chegamos. Muito 
obrigada por tudo.
      - Se eu vier passar as frias aqui de novo, disse ele, talvez v visit-la na escola.
      - Eu gostaria muito de rev-lo, replicou a jovem.
      Alex deu-lhe um abrao leve e beijinhos no rosto - primeiro na face direita, depois na esquerda. Selena j havia observado que os europeus se cumprimentavam 
assim. Lembrou-se do Antonio, seu amigo italiano, que tambm a cumprimentava desse jeito. Contudo ele fazia o mesmo com todas as mulheres que conhecia. Por isso, 
Selena no considerava aquilo um beijo de verdade. Entretanto, agora, havendo a possibilidade de Alex tambm se despedir dela assim, de repente, nesse caso seria 
um verdadeiro beijo.
      O rapaz dirigiu-se a Marta e repetiu o mesmo gesto. A mulher permaneceu imvel, mas a expresso de seu rosto suavizou-se um pouco.
      Chegou a vez de Selena. O corao da garota comeou a bater fortemente, como um tambor. Sentiu a pulsao na garganta.
      - Alex, disse ela em voz baixa e aproximando-se mais dele para que ningum escutasse, eu queria explicar o que falei l na estao ferroviria. Voc sabe, 
quando citei aquele versculo sobre ter amor intenso uns para com os outros. Eu acho que ainda no sei amar os outros. Mas voc sabe; e demonstrou esse amor pelo 
seu exemplo. Nunca me esquecerei disso. Nunca mais me esquecerei de voc. Estou to feliz de ter tido o privilgio de conhec-lo!
      Selena fez uma pausa e repassou mentalmente o que acabara de dizer, para verificar se conseguira expressar tudo que queria. Falara de forma meio desordenada, 
mas basicamente dissera ao rapaz tudo que pretendia. Sorriu satisfeita.
      Alex fitou-a com ternura, o que lhe deu a certeza de que ele "enxergara" tudo o que estava no corao dela e compreendera bem o que ela havia dito. O rapaz 
se inclinou para ela. Com um gesto firme, mas carinhoso, afastou uma mecha do cabelo de Selena que lhe cara na testa.
      Ser que ele vai me beijar? pensou a garota. Devo fechar os olhos? No; talvez seja melhor ficar de olhos abertos. Eu poderia fechar um e deixar o outro aberto. 
Que bobagem estou pensando! Estou meio atarantada! Mas o que devo fazer?
      - Meine Freunde, principiou o rapaz com sua voz grave, em meu corao h os mesmos pensamentos para com voc. Vamos nos encontrar de novo no cu. E vai ser 
um dia muito feliz para mim.
      Selena engoliu em seco.
      - No cu, repetiu.
      Entendeu que ele havia dito "minha amiga", em alemo. De repente, compreendeu que o rapaz no iria beij-la nos lbios. Enxergou ainda que Alex nunca iria 
se corresponder com ela. Ento deixou ficar no bolso o papel com seu endereo. Contudo o rapaz continuaria "com ela", guardado num cantinho de seu corao. E, graas 
a Deus, ela conseguira dizer-lhe isso.
      - Que a paz de Cristo esteja com voc! disse Alex.
      - E com voc tambm, retrucou a garota.
      Ele se inclinou para ela, ps ambas as mos nos ombros dela, tocando-a bem de leve, e encostou o rosto em sua face direita. Selena achou a pele dele fria e 
se deu conta de que suas faces estavam "em fogo", devido a emoo do momento. Em seguida, ela escutou o beijinho que ele deu no ar, perto do ouvido dela. Depois, 
ele colocou o rosto em sua face esquerda e deu outro beijinho.
      Afinal, Alex soltou os ombros dela e, para surpresa da garota, ps a mo sobre o prprio corao. Por fim, fez uma ligeira inclinao diante das trs.
      - Vo com Deus! disse ele num tom emocionado.
      Nesse momento, uma voz feminina no alto-falante deu uma comunicao em alemo.
      - Deve ser o nosso vo, disse Marta. Vamos, meninas!
      Selena e Cris seguiram a mulher, que entregou ao funcionrio da companhia area os trs cartes de embarque. Selena virou a cabea ligeiramente para dar um 
ltimo olhar para Alex. O dia em que se reencontrariam no cu talvez ainda estivesse muito longe; mas tambm era possvel que no. De todo modo, queria guardar aquele 
rosto na memria.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
Captulo Dezenove
      
      A viagem de volta foi tranquila, sem nenhum acontecimento marcante. Por si s, isso j foi um alvio. Quando as trs desembarcaram em Los Angeles, Selena se 
despediu de Cris e de Marta, para ir pegar o avio para Portland. Estavam todas to cansadas que a despedida acabou sendo pontilhada de emoes.
      - Marta, disse Selena, muito obrigada por ter me convidado para ir com vocs. Sei que disse algumas coisas que a irritaram, mas peo que me perdoe. Aprendi 
muitas lies nessa viagem e sou muito agradecida por sua generosidade e bondade por ter me levado junto. Obrigada, e... aqui ela fez uma pausa e depois concluiu: 
Gosto muito de voc.
      A tia de Cris no se mostrou espantada, como Selena pensara. A prpria garota, porm, se admirou de essas palavras lhe terem vindo  mente.
      - Sua companhia serviu para me dar um novo nimo, Selena, replicou a mulher, fitando a garota com um jeito carinhoso que era novo para esta. Aprecio muito 
sua amizade pela Cris. A princpio, no compreendi como vocs duas podiam ser to amigas. Mas depois entendi que voc  uma excelente companhia para minha sobrinha. 
Talvez seja um pouco exagerada nas questes de religio, mas parece que a Cris tambm gosta disso. Ah, e no pensem que no percebi as tentativas das duas para me 
converterem, continuou ela, dirigindo um olhar tambm para Cris. Devo confessar que naquele momento em que anunciaram que nosso trem havia descarrilado, quase decidi 
inclinar-me perante o seu Deus. Mas deve ter sido por causa das emoes do momento e do mal-estar que senti. Agora, j me recuperei e voltei a ser a mesma.
      Embora a atitude de Marta fosse de autoconfiana, Selena teve a impresso de que detectou uma ponta de ternura em seu olhar. As duas garotas se entreolharam.
      Oh, Marta, pensou Selena, voc est to perto de se converter! Pare de lutar contra Deus e entregue sua vida a ele!
      Percebeu que Cris estava pensando o mesmo.
      - Vou sentir muito a sua falta, disse Cris, abraando-a.
      - E eu a sua, replicou Selena. Depois voc me manda o sen endereo na Sua, que eu escrevo pra voc.
      Elas se afastaram uma da outra, com lgrimas escorrendo pelo rosto.
      - Pode escrever que eu respondo, ajuntou Cris. Prometo.
      - E se voc quiser uma sugesto de um presente de aniversrio pra mim, mande um pastel folhado com recheio de marzip, daquela confeitaria de Basilia.
      - 'T bom, respondeu Cris rindo. E voc quer que eu lhe mande trufas, Tia Marta?
      - No; claro que no! E voc tambm no deve comer muito chocolate enquanto estiver l, no, viu?
      As duas garotas deram risada. E mais uma vez se entreolharam em silncio, com promessas de uma amizade eterna.
      - Tenho por voc um amor intenso, disse Selena.
      Cris sorriu.
      - Eu tambm, disse. Um amor intenso. Tchau, Selena!
      Abraaram-se de novo, e em seguida Selena entrou na fila para pegar o avio para Portland.
      Uma hora e meia depois, desembarcou em sua cidade. Seus pais a esperavam no aeroporto. Mais abraos e beijos. Imediatamente a garota se ps a falar sem parar, 
contando tudo de uma vez s.
      Pararam junto  esteira rolante do setor de recolhimento da bagagem, esperando que a mala de Selena fosse liberada. De repente, ela se recordou de algo. Em 
Janeiro, alguns meses atrs, quando regressara da viagem  Inglaterra, ela estivera ali mesmo. E Paul estivera perto dela, quase naquele mesmo lugar. O rapaz achara 
que Selena havia pegado a mala dele, mas assim que examinaram a etiqueta de identificao viram que ela de fato pertencia  garota.
      Selena recordou-se de que tivera uma atitude de crtica em relao a ele durante toda a viagem de volta. Sua inteno fora passar a imagem de uma jovem madura 
e inteligente. E ao despedir-se dele dissera:
      "Passe bem!"
      A garota fechou os olhos, envergonhada do que fizera. O que estava tentando ser? Com tal atitude, no havia demonstrado "amor intenso". Recordou-se de que 
naquele momento se sentira muito "madura". Afinal, tinha viajado sozinha  Inglaterra. Agora, porm, isso no lhe parecia assim um feito tao extraordinrio. Alis, 
no era nada comparado ao fato de ter suportado fazer essa viagem  Europa com Marta.
      Ouviu-se uma sineta estridente, e a esteira comeou a mover-se. Selena se recordou das ltimas palavras de Paul para ela:
      "No mude nunca, Selena!"
      Pois eu mudei, Paul, pensou. Meu corao passou por uma grande mudana. Agora sei que no adianta ter respostas pra tudo nem obedecer direitinho ao regulamento. 
Se no tiver amor, nada serei.
      Teve vontade de poder dizer tudo isso para o Paul. Resolveu que, se tivesse oportunidade de falar com ele, iria pedir desculpas pelas palavras insolentes que 
lhe dissera e pelas cartas arrogantes que lhe enviara. Contudo era pouco provvel que tivesse essa chance. O melhor a fazer agora era aprender com essas experincias 
e tomar a deciso de demonstrar amor.
      Afinal, pensou, o amor cobre uma multido de pecados. Ser que isso inclui tambm esses erros que a gente comete por falta de maturidade?
      - Aquela ali  a sua, no ? indagou seu pai, estendendo o brao para pegar a bagagem dela.
      - , respondeu Selena, voltando ao presente.  a minha, sim.
      Chegando em casa, Selena abraou os irmozinhos, beijou a V May e ficou a conversar com seus familiares durante quase uma hora.
      - Voc trouxe um presente pra mim? quis saber Kevin.
      A garota ficou chateada. No dia em que sara para fazer compras com Marta, no se lembrara de comprar lembrancinhas para os parentes.
      - Acho que s tenho uns cartes de felicitaes escritos em alemo, disse. Esto um pouco amassados, mas acho que so engraados. No comprei presentes pra 
ningum. S comprei foi um pouco de ch. Da prxima vez, trarei.
      - Vai viajar de novo? quis saber Dilton.
      - Talvez. Algum quer ch de jasmim com canela?
      Ningum quis, ento ela fez uma xcara de ch quentinho s para ela. Depois, deu boa-noite para todos e subiu para o quarto com a inteno de "bater na cama", 
embora l fora ainda estivesse claro.
      - Tem uma surpresa para voc em seu quarto, disse a me no momento em que ela subia a escada. Acho que vai gostar.
      Contudo Selena no estava muito interessada em surpresas. S pensava em botar a cabea no seu travesseiro macio. Abriu a porta. O quarto estava arrumadinho. 
Sua me provavelmente se cansara daquela baguna e ajeitara tudo, enquanto a garota estivera viajando. A janela estava aberta, deixando entrar uma brisa clida de 
vero. Como o aposento se achava todo em ordem, ela logo avistou um papel em cima da cama, tambm muito bem arrumada. Dava para perceber que fora amassado e depois 
alisado. Era uma carta para ela, sem envelope. J conhecia bem aquela letra, ora manuscrita, ora em letra de forma, escrita em tinta preta.
      - Paul! murmurou para si mesma.
      Com um gesto rpido, pegou a folha e comeou a ler:
      "Minha cara princesa dos lirios..."
      Espere a, pensou Selena. Correu os olhos pela carta e verificou a assinatura. Era de Paul, sim. Era a carta que ele lhe escrevera meses atrs. Ela havia ficado 
to irritada com ele, que amassara o papel e o jogara no lixo. E, evidentemente, ele no tinha ido parar no aterro sanitrio da cidade. Provavelmente havia cado 
atrs da cmoda, ou algo assim, e sua me encontrara ao arrumar o quarto. Na certa, ela a lera, mas Selena no se importava com isso. Na realidade, era uma carta 
brincalhona. Alis, fora at bom que a me a tivesse encontrado. Selena ainda conservava uma outra carta de Paul, a que ele havia lhe escrito pouco depois de se 
conhecerem. Essa ela havia guardado na primeira gaveta da cmoda.
      Alisando o papel da mensagem perdida que fora achada, foi at ao movel para guard-la junto com a outra. Deu uma espiada  sua imagem refletida no espelho 
oval, para ver se estava muito abatida aps  aquela longa viagem de volta. Contudo, em vez de se concentrar no seu reflexo, o que viu foi um envelope enfiado entre 
o vidro e a moldura, num canto do espelho. Era dirigido a ela. No alto,  esquerda, vinha a indicao do remetente - apenas um endereo na Esccia. O mais importante, 
porm, era que estava escrita em tinta preta, e a letra era sua velha conhecida.
      Estendeu o brao para peg-la e percebeu que sua mo tremia. Naquele momento, compreendeu que sua me fizera com ela uma "caa ao tesouro". Quando criana, 
essa era sua brincadeira predileta. No Natal, ou em seus aniversrios, a me deixava pequenas mensagens, dando dicas sobre onde estaria o presente. s vezes, a garota 
tinha de procurar pela casa toda e sair no quintal, para conseguir encontr-lo. Sorriu ao pensar que a me tivera de arrumar o quarto s para colocar aquela primeira 
carta - a "dica" - sobre a cama. Pegando-a, Selena fora a cmoda para guard-la na gaveta. A ela se olhara no espelho e vira a outra carta. Se no fosse assim, 
talvez ela nem a tivesse avistado.
      Com a nova correspondncia na mo, a garota se dirigiu para a poltrona estofada que ficava junto  janela e sentou-se. "Sentiu falta" da pilha de roupas que 
sempre estavam amontoadas na cadeira. Abriu o envelope com a unha do polegar e lentamente tirou a carta de dentro. Era uma folha tipo pergaminho cor de marfim. Dizia:
      
      Cara Selena,
      Talvez voc fique muito surpresa pelo fato de eu estar lhe escrevendo. Tenho de confessar que eu prprio estou um pouco surpreso. Desde que vim embora de Portland, 
em junho, uma imagem tem estado sempre em minha mente: voc.
      Na vspera de minha viagem, fui  sua casa para jantar, apenas para fazer um favor a Jeremy. Desde que ele comeou a namorar a Tnia, ele vinha me pedindo 
para fazer uma visita a vocs e procurar me relacionar com a famlia. Pois bem; naquele dia, cumpri a promessa que havia feito a ele e at sa com voc para tomarmos 
um caf. Para mim, aquilo foi um simples favor que fiz a meu irmo.
      Contudo aconteceu algo que eu nunca havia imaginado: voc ficou para sempre em minha lembrana! Pensando nisso agora, percebo que estou sentindo algo que jamais 
tinha sentido antes. Voc disse uma frase que me impressionou. Falou que Deus colocou a mo em mim e vai realizar algo de extraordinrio em minha vida. Estou achando 
que ele j realizou. Ele me trouxe aqui,  terra de meus antepassados. Espiritualmente falando, este lugar  muito sombrio; muita gente aqui vive sem esperana. 
Mas nos poucos meses que estou neste pas, algo aconteceu comigo - sinto-me mais vivo.
      Hoje conheo Deus, Selena. Isso  diferente de saber algo a respeito de Deus. Converso com ele o tempo todo. Gosto de fazer longas caminhadas nos morros das 
redondezas e aproveito para cantor louvores a Deus em voz alta. No sei por que estou dizendo isso para voc. Talvez seja porque tenho a impresso de que, de todas 
as pessoas que conheo, voc  a que melhor compreende o que se passa comigo.
      Como foi que ficou sabendo que Deus tinha colocado a mo em mim? Por que orou por mim durante vrios meses, como voc mesma disse? De onde vem esse seu "cuidado" 
por mim, Selena? Pela primeira vez na vida, estou comeando a desejar ter esse mesmo tipo de atitude.
      No sei se tudo isso est fazendo muito sentido para voc. E se no quiser responder, no precisa. Eu compreendo, pode crer. Mas gostaria de pedir-lhe que 
se correspondesse comigo. Acho que, quando nos conhecemos, na Inglaterra, nosso relacionamento no teve um comeo muito promissor. Creio que naquela ocasio eu era 
muito diferente de como sou hoje. Voc cr que as pessoas merecem uma segunda chance? Pois eu gostaria de ter uma segunda chance no relacionamento com voc.
      E  com muita satisfao que lhe digo isto: estou orando por voc, Selena. E pretendo continuar, mesmo que decida no me escrever.
      Sinceramente,
      Paul
      
      Selena leu a carta outra vez, agora mais devagar e movendo os lbios. Dessa vez, ela lhe pareceu ainda mais agradvel. E quando a leu pela quarta vez, lgrimas 
lhe escorriam pelo rosto. Piscou para afast-las e leu-a pela quinta vez.
      Paul est orando por mim, pensou. Tenho de lhe contar o que aconteceu no trem; e vou lhe falar sobre Alex. Ser que Jeremy lhe falou do casamento de Douglas 
e Trcia? Ah, e posso comentar tambm sobre a Highland House. Ele vai querer saber o que est acontecendo de diferente no abrigo dirigido pelo tio dele. Puxa, tenho 
muito que lhe contar!
      Sua cabea logo ficou "a mil", pensando em tudo que poderia relatar ao rapaz. As frases iam se formando, uma atrs da outra, e se multiplicando incessantemente. 
Afinal, porm, teve de parar. Sua mente estava esgotada com a "ressaca" da viagem.
      Agora no vai dar pra escrever. Tenho de dormir.
      Encaminhou-se para a cama, dobrou a preciosa carta e colocou-a debaixo do travesseiro. Tirou o sapato e deitou-se toda encolhida na cama gostosa. O cansao 
caiu sobre ela como um cobertor invisvel, e seus olhos pesados se fecharam. Um sorriso de satisfao apareceu em seus lbios.
      Talvez Selena no soubesse exatamente como iria desenvolver esse novo e maravilhoso relacionamento com Paul. Contudo, de um fato tinha certeza; estava disposta 
a abrir o corao para ele.
      
      Fim.



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